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quarta-feira, 4 de julho de 2007

A lombada amarela 

Loja de conveniência. Fila para pagar. Olhar perdido entre os expositores, mirando pacotinhos de bolachas, batatas fritas, bronzeadores. Dois ou três segundos para reparar num enorme cesto onde se amontoam CD. À frente, um cartaz rabiscado à mão onde se lê «€1,00 a €5,00». Suspiro. Olho para o relógio. Pondero a hipótese de voltar costas e regressar a horas menos próprias para meninas sérias andarem na rua, mas mais próprias para quem não quer esperar. O indivíduo à minha frente dá um passo em frente. Admiro-lhe os sapatos: cor de caramelo, pontiagudos, horrendos. Procure-lhe o cinto e não me surpreendo: preto, claro. Suspiro. Dou um passo em frente. Estou agora ao lado do cesto de CD. À superfície, o melhor de Ella, o melhor de Louis, o melhor de Duke, uma colectânea de músicas de Natal. Ao lado, Quim Barreiros rivaliza com Romana e há um tal de Jorge cujo último nome não memorizei que canta as alegrias do regresso à terra. Suspiro. Olho para o relógio. Volto a olhar para o cesto de CD. Lá muito no fundo, ua lombada amarela cativa-me. Leio num rectângulo pequenino «Edition». Esgueiro os dedos entre as caixas e finalmente consigo segurá-lo. Saltam-me à vista as letras negras. «Ockeghem». «The Hilliard Ensemble». «Missa prolationum». «Marian Motets». Incrédula. Verifico se está selado. Está selado, sim. A fila avança. Ainda lanço um olhar de esguelha ao cesto, mas o homem gordo e suado que me segue tosse e bate o pé. Desisto e dou um passo em frente. É a minha vez. Coloco os objectos em cima do balcão e o CD. Olho para as letrinhas verdes da registadora. Quando a maquineta lê o código de barras reluz no monitor «€1,00». Pago a conta. Piro-me a rasgar o invólucro que sela a caixa. Abro-a. Contém o CD. Saio a correr da loja e mal entro no carro ponho-o a tocar. Toca mesmo. Incrível. Ockeghem pelo The Hilliard Ensemble a troco de €1,00. Penso que afinal, às vezes, é bom viver em Portugal, onde este tipo de oferta não é escoada pelo mercado e chega aos locais mais díspares aos preços mais improváveis. Ou talvez este facto não seja nada bom, enquanto indicador dos interesses dos portugueses. Mas quero lá bem saber. É graças a isso que ao som de «Intemerata Dei Mater» que vos escrevo este post. A troco de €1,00. Uma pechincha. Uma pechincha tão chocante que deveria ser crime. Mas não é.
By the way, o disco da Romana custava €5,00. O homem gordo e suado que se me seguia comprou-o.

Comentários:
Grande compra, sim senhor!
 
Olhó Migueeeeeeeeeel!

Tenho imensas saudades vossas, meus queridos! Da última vez que vos vi não deu sequer para conversarmos em condições! :( Da próxima vez não me escapam. Levem sapatos confortáveis porque vamos passar muitas horas em pé à conversa! :):):)

Beijinhos x2! :)
 
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