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quinta-feira, 28 de junho de 2007

Ver, ouvir e falar de Orgulho 

Há coisas que eu, sinceramente, não entendo. Muitas, muitas. Algumas delas dariam excelentes temas para não menos excelentes posts, algumas nem tanto. Outras, como esta, irritam-me um bocadinho e mercê dessa irritação às vezes tenho ganas de abrir o Blogger e escrever a alta velocidade um post, porque que não posso dizer isto na cara às pessoas em questão, já que nenhuma delas me disse a tal coisa que eu não entendo olho no olho.
O que eu não entendo é a razão por que as manifestações de afecto entre pessoas do mesmo sexo incomodam algumas alminhas. E também não entendo por que razão os transexuais incomodam tantas alminhas. E, já agora, por que é que há tanta gente que acha que a cultura LGBT é uma coisa altamente imoral, escabrosa e que sobrevive à base de meia dúzia de gajos que gosta de se vestir de gaja, pintar os lábios e fazer playback.
Eu explico. A propósito da Marcha do Orgulho LGBT do passado sábado, fui lendo aqui e ali na blogosfera manifestações de desagrado pelo facto de, durante a marcha, haver casais de homossexuais aos beijos e drag queens em saltos compensados. Diz este povo que os homossexuais deveriam «dar-se ao respeito», «ir para o recato do lar», «não chocar as pessoas», «vestir-se como uns homenzinhos» e outras alarvidades do género. É nestas alturas que eu peço ardentemente a Deus que me acrescente uma boa dose de pachorra para eu não ficar totalmente descrente em relação ao processo evolutivo das espécies que Darwin tanto se esforçou por provar e para continuar a acreditar que o Homo Sapiens, apesar de tudo, até é um tipo, regra geral, inteligente...
As manifestações de afecto são algo de absolutamente vulgar entre duas pessoas que se amam. Decerto ninguém se choca por ver um rapaz beijar uma rapariga. Podemos ficar incomodados se eles estiverem num banco de jardim ou de autocarro e começaram a esparramar-se para cima de nós, mas de resto já todos estamos familiarizados com a cena. Porquê? Porque é absolutamente saudável ver, ouvir e dizer manifestações de afecto pelo outro, porque é absolutamente recomendável nutrir afecto pelo outro, porque é absolutamente saudável mostrar ao outro o quanto gostamos dele, quer estejamos na rua ou em casa.
Eu, que sou consideravelmente conservadora em muitos aspectos, também tenho de ser conservadora neste: há muito tempo que descobrimos já que o amor é bom, por isso, façam o favor de não tentarem agora vir encatrafiá-lo entre as quatro paredes de uma casa! Não me venham agora dizer que aquilo em que a humanidade acredita há séculos - o amor - passou a ser uma coisa cuja manifestação deve ser enclausurada ou apenas admitida para alguns! Estamos muitos séculos à frente desse tipo de mentalidade. Deixem quem se ama amar-se, se fazem o favor. E já agora, deixem que as pessoas amem quem quiserem, sim?
Quanto à cultura LGBT, ela existe, sim e ainda bem, que assim o mundo é mais rico. E embora a cultura LGBT não se limite ao transformismo, o transformismo é uma parte importantíssima e que é praticada por muitas lésbicas e muitos gays há muito tempo. Se a Marcha do Orgulho também é para os "T", por favor, não venham dar uma de moralistas e dizer que os "L", os "G" e os "B" saem prejudicados com a associação aos "T". Já se sabe que as lutas são diferentes, que enquanto uns querem o reconhecimento do direito ao casamento, enquanto outros querem o reconhecimento do direito à mudança de sexo e de identidade. Já se sabe que muitos gays não são "T", mas também se sabe que muitos "T" são gays. Então se a Marcha é do Orgulho em se ser quem se é, porque razão é que os "T", trajados a rigor, se têm orgulho em serem quem são, não poderiam estar lá?
O que eu não entendo mesmo, mesmo, mesmo é o motivo pelo qual o facto de os "T" irem na Marcha incomoda, principalmente, os... heterossexuais! Vêm logo em defesa dos "L", dos "G" e dos "B" dizer «Alto lá, que nem todos eles usam plumas!». Vêm logo dizer que acham uma pena que as «aves raras» vão «retirar seriedade» ao momento com as suas perucas coloridas e as suas mini-saias provocantes.
Sinceramente, custa assim tanto perceber que o que dá seriedade ao momento não são tanto as pessoas que lá vão, mas sim o motivo pelo qual vão lá? Custa assim tanto perceber que toda a gente, repito, toda a gente tem o direito de se manifestar e de manifestar a sua individualidade quando é chamada a isso? Custa assim tanto perceber que na Marcha não se luta pelos direitos deste e daquele mas sim pelos direitos e pela dignidade de toda e qualquer pessoa humana?
Pois a mim não me perturba nada a presença dos "T" seja onde for. Pois a mim enche-me de orgulho a cultura LGBT em todas as suas vertentes e manifestações. Pois a mim parece-me excelente que todos tenham espaço na Marcha enquanto a Marcha tiver espaço para eles. Pois eu cá admiro imenso quem tem coragem para sair à rua de saltos altos para marchar, quem tem coragem para sair à rua de faixa ou bandeira em punho para dar a cara, quem tem coragem para sair à rua e beijar quem ama, para quem tem coragem de se mostrar como é.
Eu só tenho um compromisso nesta vida e assumi-o comigo mesma: ser feliz. E para honrar o meu compromisso tenho de ser eu mesma em todas as vertentes do meu ser e do meu carácter. Não vejo, por isso, em que é que deixar os outros ser quem são possa afectar a vida seja de quem for. Não compreendo, por isso, por que é que há tanta coisa no universo LGBT que incomoda imenso tanta gente. A mim não me incomoda nada. Incomoda-me muito, isso sim, que as pessoas sejam «mais papistas do que o Papa», o que é quase o mesmo que dizer «mais defensoras das minorias do que as próprias minorias». Uma boa dose de razoabilidade e, já agora, de sensibilidade, não faria mal a muita gente. E isto digo eu, que acho que a mim própria me falta sempre alguma.

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