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quarta-feira, 25 de abril de 2007

Outras tantas liberdades 

«E o vento cala a desgraça
o vento nada me diz»


Trinta e três anos depois, continua a ser tão urgente como então resistir e dizer não. Agora as ditaduras são outras. Trinta e três anos depois há ainda tantas liberdades para conquistar, tantas liberdades que continuam a ser tão fundamentais quanto negadas. Nem todos os 25 de Abril estão cumpridos, nem todas as liberdades são respeitadas. Há muito por fazer, há muito por que gritar «nunca mais», no país e em cada um de nós.

Na grafonola, Adriano Correia de Oliveira canta «Trova do Vento que Passa», poema de Manuel Alegre [clicar para ver o manuscrito] e música de António Portugal [clicar para ver pauta do excerto inicial].
[imagens do livro «Adriano Presente!», de Manuel Reis, editado em 1999 pelas Edições Ausência, via Cantaremos Adriano]

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

[Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio - é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão p'ró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.
Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.]

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

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