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quarta-feira, 1 de novembro de 2006

«A paciência é uma virtude, Mente.» 

Assumo (o nome deste blog é Assumidamente por algum motivo, não?): eu cá já não tenho pachorra para os pseudo grandes debates da nação que o programa Prós & Contras da RTP1 se arroga fazer. Explico porquê.
Tomemos como exemplo o último programa. O tema do debate foi o referendo sobre o aborto. Vamos lá ver por pontos por que é que eu me irrito com aquilo logo no início.
1. Vejamos os convidados: deputados e médicos. Acaso se trata de uma questão unicamente política e de saúde? Onde estão os juristas, os sociólogos e os historiadores, só para fazer referência às áreas que mais gritantemente, na minha modestíssima opinião, deveriam estar presentes nestas conversas? E já agora, por que é que nestes debates quase nunca se fala das experiências de outros países? Um povo como o português, que tanto gosta de sondagens, também haveria de gostar, de vez em quando, de um estudozinho comparado, minha gente! Mas não. Disso não se ocupa o Prós & Contras. Se os estudos fossem feitos por alguma empresa ligada a um secretário de Estado, ainda vá que não vá, mas se não forem, que raio de interesse é que podem ter?! É que nem para notícia dão...

Já sei o que estão a pensar. Eu sei que ainda agora comecei a escrever e já estou a ser irónica. Eu bem que tento, palavra de honra, mas não consigo resistir à ironia. A falta de paciência leva-me a isso. Pensar que à segunda-feira à noite se fazem no Prós & Contras os grandes debates da nação deixa-me assim: irónica. Adiante.

2. A Fátima Campos Ferreira até nem é má rapariga, mas vê-la naquele papel já me dá náuseas. Sou exigente, bolas. Para mim é preciso mais do que dez frases decoradas e um gesto de mãos recorrente para conduzir um debate. É preciso dominar as matérias, é preciso poder de condução, é preciso carisma, é preciso saber fazer o papel de advogada do diabo, coisa que a angelical Fátima (não sei se perceberam o trocadilho com o angelical e o Fátima) não faz. Às vezes dou por ela a acenar que sim com a cabeça quando o convidado x ou y está a dizer qualquer coisa. E aqui peço licença para uma breve interrupção para deixar umas palavrinhas à senhora.

Querida Fatinha: assim não. Permita-me umas sugestões. Veja a Maria Flor Pedroso ao domingo à noite a dar que fazer ao Professor Marcelo. Veja e aprenda como se faz. Veja como ela acena que sim com a cabeça ao que ele diz e quando ele conclui remata com uma frase a contrariar o que o homem acabou de dizer. Conte o número de vezes que o Professor Marcelo diz "pois" e "vamos ver" depois de a Maria Flor Pedroso rematar o comentário dele... Perceba como o homem fica com a noção de que tudo o que ele diga poderá ser rebatido por ela e como isso o obriga a fundamentar bem o que diz e a pensar as palavrinhas todas. Perceba como ele se dá conta de que a interlocutora dele tem miolos. Veja, conte, examine e aprenda. Vai ver que só lhe fará bem. E já agora, repare bem na postura da Maria Flor Pedroso. Já viu que ela não tem nenhum tique nem com as mãos, nem de mexer no cabelo, nem expressivo? É que ela impõe respeito só pelo modo como olha para o Professor Marcelo. Até ele, quando fala, mal consegue tirar os olhos dela... Bem, nesse aspecto não o censuro... ;)

Onde é que eu ia que já me perdi? Ah! Já me lembro. Ia falar das vitórias e das derrotas!

3. Ponto assente: por princípio, sou contra esta mentalidadezinha do debate que existe em Portugal. As pessoas vêem os debates não para assistir a um confronto de ideias e daí tirar uma súmula que seja profícua, não. Desenganemo-nos: para a malta cá do burgo – e nisto a comunicação social dita modas e lança tendências - , o que interessa saber em relação a um debate é quem ganhou. Sim, porque os debates ganham-se ou perdem-se, não sabiam? É verdade! É assim uma espécie de "guerra" para a qual as pessoas vão abastecidas de "munições" (as palavras, que não importa que sejam coerentes, importa é sejam em maior número que as do oponente) e onde tentam "matar" o "adversário" (ou seja, o tipo que tem o atrevimento de ter uma opinião contrária!). Ninguém faz debates para aprender, nem para reflectir, nem para amadurecer ideias nem para confrontar opiniões e daí tirar a melhor solução. Nada disso! Os debates em Portugal servem para ver quem é aquele que, logo à partida, tem as "armas" (os argumentos, dizem eles) mais fortes. Ou seja, aquele que no final tiver ganho, é aquele que já antes do debate tinha razão! Os debates são, assim, uma espécie de consagração. O vencedor é o tipo esperto, o gajo que afinal tinha razão, o gajo que sempre teve razão! Aliás, se não fosse para essa consagração, os debates nem eram necessários! Afinal, as opiniões não se formam após os debates, meus amigos! As opiniões são anteriores aos debates! Os debates não servem para informar, servem para consagrar! Por isso é que não interessa nada saber o que aconteceu nos outros países! Interessa é saber, dos portugueses que lá estão a debater, quem é o mais Chico-Esperto!

Por isso é que eu já não tenho pachorra para os debates. Se calhar o mal está no facto de já ter assistido a muitos. É que eu tive durante muito tempo o hábito de ver debates para apontar as asneiradas que as pessoas iam dizendo. Gostava especialmente daqueles entre o José Sócrates e o Pedro Santana Lopes no Jornal de Domingo da RTP1. Esses eram um fartote de rir! Quando se falava de aspectos jurídicos, os comentários do Sócrates eram um prato cheio! Já o Santana metia a pata na poça assunto sim, assunto não!
Agora os debates deprimem-me, caramba! Deprimem-me mesmo! Estão a ficar muito portuguesinhos, os debates em Portugal (olha, mais um trocadilho)! Os convidados não vão lá para esclarecer quem os está a ver, vão lá para medirem as pilinhas, perdoe-se-me a expressão. De tal modo que vale tudo, até contradizerem-se a si próprios, desde que isso achincalhe a participação do outro. Eu dou um exemplo partindo, novamente, do programa de ontem.
Decerto todos ouvimos a Edite Estrela dizer ontem que, caso a lei seja alterada de acordo com o que é proposto no referendo, uma mulher que interrompa voluntariamente a gravidez às onze semanas terá de responder por isso em tribunal porque «as leis são para cumprir» (palavrinhas da própria). Sim, quem disse isto foi a mesma Edite Estrela que afirmou, como todos bem se lembram, a propósito de julgamentos já realizados, que nenhuma mulher deveria ser punida por ter feito um aborto. Estão a ver como a senhora é profundamente coerente, não estão? Já agora, se me é permitido, mais uma interrupção para dirigir umas palavrinhas à Edite Estrela...

Ó senhora deputada, se não fosse pedir muito, já que a senhora é deputada do partido do governo, será que poderia explicar-me três aspectos que me intrigam na pergunta do referendo? São os seguintes:
1. Admitir que a decisão da realização do aborto dependa de uma decisão unilateral da mulher não é descuidar a posição do homem e, portanto, consagrar na lei uma flagrante violação do princípio da igualdade? O que é que lhe diz a sua sensibilidade jurídica sobre isto?
2. O que determinou a escolha do prazo das dez semanas para delimitar o aborto legal do aborto ilegal, visto que nenhuma alteração significativa se verifica na vida do feto entre as dez e as onze semanas, por exemplo? Porquê dez, é por ser um número mais redondo, é? Ou é por ser o número da camisola do Rui Costa na Selecção (prima aNa, é o 10, não é?)?
3. Na lógica desta proposta, a mulher que aborte até às dez semanas em estabelecimento legalmente autorizado não comete um crime, enquanto que a que aborte em estabelecimento não autorizado já o comete. Assim, pergunto: o que distingue, neste caso, a conduta criminosa da não criminosa é o local onde o aborto é realizado? Ora bolas, senhora deputada, eu que pensava que o que qualificava uma conduta como crime era o facto de violar um bem jurídico fundamental para a comunidade, fico na dúvida se tudo não se resumirá a circunstancialismos de lugar... Milhares e milhares de páginas de doutrina geral do crime que me enganaram! Aquele malvado ignorante do Roxin...

E já chega de diálogo com a senhora deputada que nem sequer me vai responder. Até porque desconfio que mesmo que eu estivesse frente-a-frente com ela não me responderia, mas é só uma desconfiança minha... Isto era só mesmo para demonstrar algumas incoerências flagrantes que, aparentemente, não preocuparam muito os participantes do debate que se batiam pelo «sim». Mas porque este post não tem como objectivo dissertar acerca das coisas que me intrigam na proposta de alteração da lei, fico-me por estas palavras que servem apenas para demonstrar que não importa a contradição, importa é ganhar o debate!

E no dia seguinte, a que se assiste? De que se fala à terça-feira? A comunicação social, os bloggers e o Zé e o Joaquim enquanto tomam a bica ao balcão discutem entre si quem saiu vitorioso no Prós & Contras da noite anterior. E a desgraçada da Fátima Campos Ferreira dá por si com um novo dilema para resolver: que fatiota usar no programa da próxima semana?!

Pronto, basta de ironia e de dar tau-tau nos debates do Prós & Contras. Termino como comecei, assumindo. Assumo que desliguei o televisor insatisfeita e cada vez mais convencida de que (e estou a ver que isto tende a piorar com o avançar da idade), não tenho mesmo nenhuma réstia de pachorra, nem com carradas de ironia, para debates de pequeninos vencedores e vencidos. Não deve faltar muito para nem sequer ligar o aparelho à segunda-feira à noite. E chego à conclusão que com intervenções de certo calibre e debates neste formato, ficamos todos, lamentavelmente, a perder.

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