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quarta-feira, 21 de junho de 2006

Porto seguro 

Ao longo destes quase três anos, este blog conheceu muitos rumos. Falámos aqui de muitos assuntos, discutimos pontos de vista diversos (e quantas vezes de forma tão acalorada!), expusemos opiniões, alcançámos consensos, despertámos dúvidas, revelámos inquietações, em suma, escrevemos aqui o nosso dia-a-dia: vivemos.
Num tom mais intimista, falámos de nós. O Assumidamente foi receptáculo das nossas cumplicidades, albergue das nossas palavras-segredo, ponte de uma para a outra, projecto comum, bébé-virtual gerado e amamentado por ambas, diariamente acarinhado e mimado como um bébé não-virtual seria, caso o tivessemos.
Mas acima de tudo, este nosso baby-blog foi registo daquilo que sentimos ao longo da sua existência. Cada post, mesmo aqueles em que não fizemos apaixonadas declarações de amor nem expressámos a saudade, a ternura, o carinho, a falta, a angústia e todos os sentimentos que temperam a vida a duas, fala de nós. Cada linha dos nossos textos fala da pessoa que nos fomos fazendo, por meio do nosso crescimento paralelo. Cada palavra que aqui escrevemos espelha aquilo que cada uma de nós se fez dentro da outra.
Fizemo-nos uma dentro da outra, mas inegavelmente, fizemo-nos também dentro deste blog. Aqui abordámos temas de perspectivas de tal modo nossas, que nem @ leitor@ mais fiel, mais atent@ e mais perspicaz as compreenderia. Aqui escrevemo-nos, de uma para a outra, uma à outra, a nós próprias.
Passados 64 dias desde o último post, é aqui que regresso. Depois deste silêncio, só aqui a minha boca encontraria espaço para se abrir, só aqui as ondas da minha voz encontrariam ar para se propagarem. Só aqui, no fundo branco desta tela, desta nossa tela, os caracteres que preciso de escrever (tanto, como de alimento para subsistir) encontrariam o seu lugar. Aqui, neste blog que serviu para tanto, tanto, e tanto mais do que o que eu seria capaz de traduzir em vocábulos, me encontro de novo com o silêncio que preciso de preencher com a torrente que me afoga o peito.

Sabes, ainda há posts do Assumidamente a ecoarem dentro de mim. Ainda há lugares por onde passo que cheiram a nós. Ainda há sons que têm o teu sorriso. Ainda há pessoas que nos têm a ambas no olhar. Ainda há silêncios que têm os teus cabelos tombados sobre eles. Ainda há palavras e expressões que têm a nossa cumplicidade. Ainda há dias que te têm neles. Ainda há dias que teimam em não ser somente meus, porque os meus dias não são só meus, nunca mais o foram, desde o primeiro deles que partilhei contigo. Sabes, não sabes? Eu sei que sim, que sabes. Conheces-me, sentes-me, vives-me.
Também sei que todos os dias vens cá, ver "o menino". Sei que todos os dias vens aconchegar-lhe a roupa, ajeitar-lhe a almofada, apagar-lhe a luz. Todos os dias vens cá, tal como todos os dias eu venho, fazer o mesmo que tu e exactamente pela mesma ordem. Todos os dias lhe deixas um beijo, como eu lhe deixo um beijo. Todos os dias o cobres de saudades, como eu o cubro.
Talvez este post seja lido por ti. Talvez te deixes enredar por alguns minutos nele. Por isso, devo aproveitar todos esses preciosos momentos para te dizer que não tenho vergonha de escrever aqui que me fazes falta e para te fazer sentir que a vontade de to dizer foi maior do que todos os receios, todos os pudores, todas as contenções.

Tenho andado em travessias, como sabes, em viagens interiores sem mapa e sem fim. Decorrido todo este tempo, cheguei já a uma, mas apenas a uma conclusão: a de que não há portos seguros dentro de nós próprios e, por isso, precisamos dos outros, para neles nos aconchegarmos e restabelecermos forças.
Sei que corro o sério risco de te desiludir ao admitir que ainda só sei isto. E sei bem que é possível que pares de ler este post neste mesmo instante. Nem sei, aliás, se ainda estarás a lê-lo. Mas se estiveres, deixa-me só dizer-te, hoje, aqui, que embora eu não saiba mais nada, sei do mais fundo de mim, com toda a certeza possível, que crescemos sempre que nos damos conta de que ainda não sabemos nada, que talvez nunca venhamos a saber nada, para além da verdade irrefutável de que cada um de nós tem um porto seguro e cada um de nós é porto seguro de alguém. Talvez sintas, como eu, que tu és o meu e eu o teu. E isso seria, simplesmente, a melhor descoberta desta minha humana jornada.


Para partilhar contigo nesta nossa conversa: Cannonball, do Damien Rice. Tenho a certeza de que vais gostar.

There's still a little bit of your taste in my mouth
Still a little bit of you laced with my doubt
There's still a little hard to say what's going on

There's still a little bit of your ghost, your weakness
There's still a little bit of your face I haven't kissed
You step a little closer each day
That I can't say what's going on

Stones taught me to fly
Love, it taught me to lie
Life, it taught me to die
So it's not hard to fall
When you float like a cannonball

There's still a little bit of your song in my ear
There's still a little bit of your words I long to hear
You step a little closer to me
So close that I can't see what's going on

Stones taught me to fly
Love, it taught me to lie
Life taught me to die
So it's not hard to fall
When you float like a cannon...

Stones taught me to fly
Love, it taught me to cry
So come on courage
Teach me to be shy
'Cause it's not hard to fall
And I don't wanna scare her
It's not hard to fall
And I don't wanna lose
It's not hard to grow
When you know that you just don't know

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