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segunda-feira, 6 de março de 2006

Memórias de nós 

Todas as noites me deitava com a certeza de que ia acabar.

Afastava-lhe os caracóis caídos sobre os olhos já fechados, beijava-lhe, numa carícia só, o canto dos lábios, para que não acordasse, e ficava ali, cabeça pendurada sobre a mão a tentar adivinhar-lhe os pensamentos que se escondiam por detrás da paz que transbordava daquele rosto adormecido.
Não sei contar quantas horas passei já assim, deitada de lado na cama, a admirar-lhe a face, enquanto me contorcia com a certeza da dor de que um dia iria acabar... Perde-se a noção do tempo com o Amor... perde-se a noção de tudo com o ciúme!
Pelo menos eu perdi!...
Não sei explicar o ciúme, defini-lo, encaixá-lo em qualquer uma das psicoses ou dos comportamentos humanos que as ciências mais ou menos esclarecidas já catalogaram. Não sei se tem graus estabelecidos, níveis descritos em latim do estilo ciumitus aguditus ou ciumens latus. Conheço pouco de todos os outros seres humanos para poder aqui fazer generalizações... aliás, se bem repararem, nem sequer é algo de que se fale por aí generalizadamente na primeira pessoa, que o "Eu" é sempre perfeito e o verde do ciúme não faz pendant com o que de mais grandioso gostamos que fique dito de nós.
... E, no entanto, nunca esquecerei o desespero daquelas noites em que me invadia o mais ardente dos calafrios...
Podia dizê-lo fruto da certeza, de então, de que não era retribuído o Amor com que acariciava os lábios adormecidos à minha frente. Horas seguidas me interroguei porque razão me deitava ali nos lençóis que viviam ainda o luto de um amor abruptamente rematado (as coisas que eu escrevo: o luto de um amor... como se os Amores alguma vez morressem! Bem, mas isso dava outro blog, não vale a pena desviar o assunto, que eu já não sou mulher de poucas palavras com um tema só, quanto mais se começasse a ceder à tentação da divagação!)... O que fazia ali, perguntava-me... E desculpava-me sempre com a ideia de que não era eu que estava em posição de me afastar, que quem ama não acaba e se ela sabia que não me amava devia ser ela a terminar aquela relação em que eu já estava perdidamente envolvida ainda antes de começar. E dizia-lhe isso, pedia-lhe quase por favor para terminar comigo, e ela que não, que gostava de me ter por perto. Mas tu não me amas. Pois não amo não Sr.ª... Mas então acaba comigo... Mas eu estou bem contigo assim, se tu não estás bem tu é que tens de acabar... Mas eu estava bem... tão bem que sabia que um dia teria que acabar!
E via o fim em todo o lado: nos sorrisos cúmplices com as amigas mais próximas (quem me mandava a mim ter amigas giras? Por que raio não me dava só com mulheres desdentadas e mal cheirosas?), nos olhares que trocava com a miúda da mesa ao lado nos restaurantes, nas mensagens de telemóvel ou nas conversas do Messenger, nem que fossem sobre o tempo! Não posso deixar de admiti-lo: tinha ciúmes de tudo, das pedras da calçada que fitava enquanto caminhava aos livros que a faziam desviar a atenção de mim, tudo era motivo para, mais do que pressentir, confirmar, que o fim ia chegar!
Tudo era motivo, escrevia eu a tentar fugir, por entre a subtileza da linguagem ao rigor dos factos... Ora vamos lá corrigir: substituam o motivo por pretexto e tudo será muito mais verdade! Não preciso de repetir que não faço a mais pequena ideia a que se deve o ciúme das outras pessoas, se o sentem sequer ou como o sentem... quanto ao meu ciúme, ao tal calafrio que assumidamente ardia em mim e me fazia sentir próxima demais da linha que nos delimita a racionalidade, tenho que admitir que era... é... muito mais produto de um tremor interno do que de qualquer condição atmosférica que o tempo, ela ou os outros provocassem.
O ciúme, não passa(va) em mim do horror que era imaginar que aqueles que estavam a ser os melhores momentos da minha vida um dia poderiam acabar. Sobressaltada por esse receio, vivia na ânsia da antecipação, procurando prever causas exteriores que ameaçassem a nossa felicidade, para poder aniquilá-las ainda antes de nascerem, não lhes dar oportunidade de crescerem, ou, quanto muito poder prevê-las, preparar-me para elas, para nunca ser apanhada desprevenida, de calças de uma ilusão na mão, sem poder de reacção.
E nessa angústia, perdia horas de vida ali atormentada, em frente a ti, enquanto dormias (horas de vida e de sono, já para não falar dos problemas de circulação que ganhei no braço, que isto de estar ali tanto tempo a segurar a cabeça não podia passar sem efeitos secundários!)... e perdíamos horas de nós em discussões circulares que apenas tiveram o mérito de expor à evidência da verbalização o ridículo dos meus receios e o tamanho do Amor que me ligava a ti.
Ter-me-á valido, então, o teu dom da argumentação e o meu cansaço. Rendi-me à diferença de sentimentos, confortada nos braços einsteinianos de que, ao fim e ao cabo, ninguém vê o Sol da mesma cor, ninguém sente o vento da mesma forma, porque haveríamos nós que ter que amar, à partida, com a mesma intensidade? E foi quando me entreguei, enfim, à sorte - que nestas coisas do Amor tanto vale – e me deixei arrastar pelos dias até ao momento em que acabasse, sem tentar entrever, a cada passo, em cada momento, em cada pessoa, o motivo para esse fim, que começámos então a ser felizes!

Hoje, cinco anos volvidos desses dias, ainda sei dizer perfeitamente a que sabe aquele calafrio... Não nego que o sinto ainda querer invadir-me em algumas das noites em que te afasto os caracóis caídos sobre a testa para te admirar essa cara de mulher-menina que sei que nunca perderás... aprendi, porém, a conviver com ele e a perceber o que verdadeiramente é: o fruto interno de um receio incomensuravelmente desmedido de que um dia acabe... nenhum gesto teu para com outr@s, nenhum sorriso externo... nem um único esgar... só eu e um tremor interno, nada mais!

E ainda agora todas as noites me deito com a certeza de que um dia vai acabar.

Seria profundamente psicótico da minha parte querer atribuir a condição da eternidade a uma relação humana!... Temer o fim seria temer-me a mim própria, à minha própria natureza!
Tanto de cada um de nós acaba em cada dia! Tanto de nós as duas ficou já no tempo que passou! Os dias calmos de entrega contínua, pasta de estudante num braço e música despreocupada no outro, deram lugar a horas contadas e apressadas, palavras ponderadas de quem já sabe o que faz no outro aquilo que vamos dizer... Há quem lhe chame crescer! A verdade, porém, é que em cada evolução há uma morte, o fim de um estádio!... E que bom é saber que temos ainda tanto para evoluir, tanto para acabar do presente num futuro que será maior, mais nosso ainda... mas mais próximo também do "fim" final...

É por isso que, agora, quando todas as noites me deito a teu lado com a certeza de que vai acabar, não deixo que qualquer calafrio nos perturbe o momento, pelo contrário, sorrio-te nos lábios um beijo bem quente, abraço-te com força para te acordar e, vingando o futuro, gozo o presente com uma intensidade a redobrar!

Comentários:
Só quem ama, tem cíume!
Amar é bom!

bjs***

Boa noite.
 
* engulo em seco *
 
O amor também tem destas coisas,da certeza de que vai acabar, é por isso que é tão desejado.
Ora aqui está um post bastante intenso.
Os meus parabéns.
 
Gostei muito da intensidade do post...Mas apesar de acerrimo defensor de que se viva o momento, creio que existem "coisas" que nao tem fim!
 
Bela exposição de sentimentos.
Corajoso, sem dúvida.
Mas creio que todos já tivemos essa cobardia...a de ter medo de amar.
 
É difícil ficar-se indiferente a uma tal Declaração!...
Tenho muita falta de jeito para comentar, por isso, Assumida Mente, permite-me destacar uma frase e deixar ao poeta o comentário. Bem haja!

“O ciúme, não passa(va) em mim do horror que era imaginar que aqueles que estavam a ser os melhores momentos da minha vida um dia poderiam acabar.”


De tudo ao meu amor serei atento,
Antes e com tal zelo, e sempre e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento,
Quero vivê-lo cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso, e derramar meu pranto,
Ao seu pesar, ou ao seu contentamento,
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive,
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer, do amor que tive,
Que não seja imortal, posto que é chama,
Mas que seja , infinito, enquanto dure.

Vinícius de Moraes
 
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
 
Não conhecia o blog, mas a propósito deste paralelismo amor/ciúme, também escrevi um artigo que se chama: "Ataques de ciumeira" e que gostaria de compartilhar connvosco!
Quando quiserem apareçam!
Um abraço,
Daniela.
 
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
 
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