.comment-link {margin-left:.6em;} <$BlogRSDUrl$>

segunda-feira, 14 de novembro de 2005

Só um beijo! 

Aproveito o fim-de-semana para ler com mais atenção a história da reacção do Conselho Executivo (C.E.) da Escola Secundária António Sérgio ao namoro entre duas estudantes, que correu os jornais a semana passada. Leio quase escandalizada a afirmação de um senhor que se diz professor e Director do C.E. da dita escola: "Não permitimos beijos, abraços ou apalpões, de heterossexuais ou de homossexuais"...

Volto atrás e releio: "Não permitimos beijos, abraços ou..."... Mas a revista voa-me pelo ar antes de conseguir acabar a frase e o Pedro invade-me o colo para me contar em surdina: "Já tenho uma namoiada".
O Pedro é, como não será difícil de adivinhar, o mais novo da família, a alegria da casa e, claro está, o menino bonito da família. Por isso, não me admira que, do alto dos seus quase três anos, consiga já partir corações.
- Ai sim, e então como se chama?, pergunto eu também em surdina, que os segredos das crianças não são para ser levados menos a sério que os segredos dos adultos!
- Teresa.
- Que nome bonito!

O Pedro sorri com o ar semi-malandro semi-amoroso que, já sabe, nos derrete o coração.
- E então o que é que vocês fazem quando namoram? - Ok, eu bem sei que a pergunta é parva, mas não resisti!
- Damos a mão e às vezes damos beijinhos. A resposta era óbvia e o dah habitual só não saíu logo a seguir porque entretanto se lembrou de olhar para o lado e perguntar-me. - Eles são namorados?

Ao nosso lado no sofá, o meu irmão e namorada assistiam atentos ao tradicional filme de Domingo à tarde na televisão. Ela cabeça sonolenta pousada no seu ombro, ele mão carinhosamente distraída às voltas no seu joelho.

- Claro que somos namorados, Pedro, não se vê logo?
- Então porque é que tu não lhe dás um beijinho?
- É claro que dou, mas primeiro tenho que pedir. Filipa, posso dar-te um beijinho?

Um aceno que sim e um beijo ternurento no canto dos lábios bastou para que o miúdo ficasse satisfeito e lá partisse à descoberta de outra coisa qualquer, que aos três anos há um Mundo inteiro para descobrir e a importância e subversão das coisas é aquela que os adultos lhe quiserem dar.

- Olha, tão pequeno e já com namorada einh?!
- Ó João, quantas namoradas tiveste na idade dele?


Teve imensas obviamente! Quase tantos como os namorados que me arranjaram a mim no Infantário! No Infantário é bonito os meninos andarem de mão dada com as meninas nos recreios, nos passeios e nas festinhas. Tudo aos pares azul e cor-de-rosa. E quando nos vêem acham-nos todos adoráveis e queridos e vá lá dêem lá um beijinho e nós dávamos onde calhasse, como calhasse, e achavam-nos todos tão queridos... E éramos efectivamente tão queridos!

A kiss is still a kiss

E depois crescemos e vamos para a escola primária e para a Secundária e para onde a vida nos levar e os beijos deixam de ser os que os adultos nos dizem para dar, para passarem a ser aqueles que queremos dar, a quem nós escolhemos dar. Sem que deixem de ser queridos, sem que deixem de ser uma das maiores expressões de ternura e afecto que conheço. Pelo menos, assim sempre os vi... pelo menos, assim sempre foram encarados em todas as escolas onde andei! Lembro-me, por exemplo, que numa dessas escolas havia um sítio recôndito para onde os mais velhos iam fumar às escondidas e para onde, por vezes, os casais de miúdos mais novos se iam esconder. Lembro-me também de ouvir muitas vezes as exemplares funcionárias da escola dizerem a esses casais: namorar é à frente das outras pessoas, não é às escondidas aqui atrás! Namorar Às escondidas é feio!... A filosofia compreende-se, nem é preciso explicá-la!

Talvez seja por ter crescido sempre assim, em escolas liberais, onde os casais heterossexuais que iam despontando se beijavam (de forma sempre muito menos arrojada do que nos filmes ou nas novelas que também passavam na escola) sem qualquer problema e sem que chocassem ninguém, que não consigo compreender como é que, de repente, dez anos depois de eu andar na Secundária, há escolas onde são totalmente proibidos "os beijos os abraços ou os apalpões", tudo assim metido no mesmo saco, tudo dito como se fossem formas aprimoradas de depravação e escândalo sexual!!!
Não percebo!

Ou por outra, até percebo! Percebo algo bastante forte e que o pudor (agora sim!) me impede de comentar! Percebo que, por muito triste que seja, há pessoas perversas que não conseguem deixar de olhar para os beijos e ver simplesmente beijos! Que há pessoas mesquinhas que não conseguem deixar de assistir a beijos sem deixar de imaginar toda a sexualidade que possa existir entre as duas pessoas que simplesmente se beijam! Percebo, além do mais, que os beijos, as manifestações de carinho entre lésbicas chocam e incomodam, porque há pessoas doentes que não conseguem assistir a eles sem deixarem de se entusiasmar com a ideia de duas mulheres a praticarem sexo; que os beijos e as manifestações de carinho entre gays chocam e incomodam, porque há pessoas qe não conseguem assistir a eles sem deixarem de imaginar quem é que mete o quê em quem e como!...

É triste! É demasiadamente triste e preocupante para que seja dito com as letras todas! Triste e revelador de que quem precisa de ser educado, não são os jovens, para quem os beijos são tantas vezes só beijos trocados em descoberta, trocados em carinho, trocados em beijo às vezes tão simples como os beijos do Pedro à namorada... beijos só e nada mais!

Na grafonola: Kiss me, em versão acústica, dos Sixpence None The Richer.

Comentários: Enviar um comentário


Links to this post:

Criar uma hiperligação

Somos altos, baixos, magros, gordinhos, extrovertidos, introvertidos, religiosos, ateus, conservadores, liberais, ricos, pobres, famosos, comuns, brancos, negros... Só uma diferença : amamos pessoas do mesmo sexo. Campanha Digital contra o Preconceito a Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgéneros. O Respeito ao Próximo em Primeiro Lugar. Copyright: v.


      
Marriage is love.


This page is powered by Blogger. Isn't yours?

referer referrer referers referrers http_referer