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sábado, 16 de julho de 2005

Categoricamente estúpido... 

... é o nome de um artigo de de Kera Bolonik, uma colunista lésbica nova-iorquina que escreve em diversas publicações, nomeadamente, The New York Times, Advocate e The Nerve. Neste artigo, a autora debruça-se sobre o estudo sobre o qual falei no post anterior, mais concretamente, sobre o método de investigação utilizado e sobre as respectivas conclusões, um pouco na esteira do que fizeram algumas comentadoras deste blog.
Convém ainda esclarecer que artigo foi, tal como escrevi, publicado no suplemento de saúde do El País, mas, soube-o agora via Farpas e Bitaites (Obrigada, Zigtai!), a fonte original é o The New York Times.
O tom de Kera Bolonik é humorístico, sarcástico, mas muito incisivo, motivo pelo qual optei por traduzir o texto e publicá-lo aqui (e já sabem que se encontrarem erros de tradução estão à vontade para os corrigir...). Até porque a diferença de perspectivas enriquecem o debate, o que nunca parece ser demasiado quando se fala sobre a sexualidade humana.

Entretanto, desde a passada quinta-feira que soa na grafonola das "Mentes" o "Girls and Boys" dos Blur. Muito a propósito...


Categoricamente estúpido
por Kera Bolonik

Kera BolonikNo dia 5 de Julho, o
The New York Times publicou um artigo dando conta de um dos mais duvidosos artigos psicológicos de que há memória nos tempos recentes.
Em
"
Straight, Gay, or Lying: Bisexuality Revisited", Benedict Carey relatou as descobertas de um estudo recente no qual uma equipa de psicólogos alistou 100 homens que se identificaram como sendo gays, heterossexuais e bissexuais para assistirem a pornografia gay, hetero e bissexual.
Durante o visionamento dos filmes, o estado de excitação dos sujeitos foi monitorizado com o auxílio de sensores. A partir destes factos, os investigadores deduziram que a maioria dos homens que se diziam bissexuais não o eram, mas sim, de facto, ou hetero ou homossexuais.
O que o
Times não publicou, e que foi mais tarde objecto de uma larga cobertura no
AMERICAblog.com, é que o investigador que liderou a equipa que fez este estudo, o Dr. J. Michael Bailey, é detentor de um historial de violações éticas, já foi conotado como racista, com um movimento neo-eugénico(1) e, apesar de repetidamente se dizer gay friendly, é conhecido por ter afirmado a sua crença de que a maioria dos transexuais "tem uma tendência especial para a prostituição".
Ao dar crédito a um estudo tão questionável, o jornal mais influente de toda a América acaba por comprometer também a sua própria credibilidade. Como haveremos de levar a sério esta mão cheia de psicólogos – de instituições tão reputadas como a Northwestern University e o Centro para a Adição e Saúde Mental de Toronto –, cujo único meio utilizado para contradizer as teorias de Freud e Kinsey foi medir as erecções de 100 homens enquanto eles viam filmes pornográficos?

Antes de tudo, será a parte física o único elemento que permite medir a orientação sexual? E então o toque e o cheiro – não são as feromonas um factor que contribui para a determinação da nossa sexualidade? E que lugares ocuparam as questões que permitiriam aferir as respostas de cada um dos sujeitos a estímulos emocionais e intelectuais? Eu não sou propriamente uma
expert nesta matéria, mas, para mim, é demasiado evidente que a abordagem feita por estes investigadores não deixa espaço livre para outra nuance. E o desejo tem tudo a ver com nuance
.

Se eles tivessem aplicado os mesmo critérios à minha pessoa – uma "quase perfeita" lésbica, de nível 6 na escala de Kinsey – e tivessem ligado os eléctrodos às minhas partes marotas antes de me sentarem em frente a um ecrã de pornografia, eu realmente tê-los-ia conduzido a uma encruzilhada. Os filmes lésbicos ter-me-iam despertado pouco mais do que um bocejo, a pornografia heterossexual ter-me-ia feito erguer uma sobrancelha e os filmes
gay ter-me-iam feito contorcer no chão. Pelos seus padrões de avaliação, será que isso faz de mim uma bissexual? Um homem gay
? Heterossexual?
Deixem-me contextualizá-los: no que toca a estimulação visual, nada me excita mais do que ver dois homens a fazer sexo. Há qualquer coisa de admirável na pornografia masculina, pelo menos em princípio: é igualitária. Toda a gente tem direito a uma voltinha "em cima", tal como "em baixo". Toda a gente se vem e, frequentemente, em simultâneo. Talvez seja por isso que muitas lésbicas adoram pornografia
gay
masculina.
Mas apesar de eu apreciar os homens de um ponto de vista estético e como companhias platónicas (sim, alguns dos meus melhores amigos são...), eu nunca fui capaz de prosseguir até ao departamento do desejo. Já me senti excitada ao beijar, apalpar e sentir uma erecção de encontro ao meu corpo. Mas quando as minhas feromonas se misturam com as feromonas deles e os preliminares dão origem ao sexo, o meu corpo desliga. Tenho de parar, deixando o pobrezinho com os testículos azuis… E eu não sou uma daquelas raparigas que se diverte a ser desmancha-prazeres para os rapazes – nem no meu coração, nem na minha cabeça.
Ao invés, nunca deixei uma mulher "por mãos alheias". O simples aroma da sua pele faz tremer as minhas mãos, o meu rosto corar, o meu coração bater mais depressa. Já me apaixonei por mulheres em empresas, em festas, após trocas de e-mails, nas páginas de livros e no ecrã. E demorou cinco minutos, um mês, um ano.
Na esteira das teorias de Freud e Kinsey – e dos seus discípulos – estes serão os critérios que uso para definir quem sou. E julgo que eles estão bastante perto da verdade. Se eu alguma vez me tivesse apaixonado por um homem, mesmo que fosse apenas uma única vez, eu apelidar-me-ia alegremente a mim própria de "bissexual", se tivesse que apelidar-me de alguma coisa.

Mas o que potencia estes estudos idiotas, penso eu, é uma questão de semântica. "Bissexual" é um "rótulo" essencialmente redutor. Antes de tudo, nós apreendemos "sexuais", conotando uma preferência, não uma orientação. A palavra arrasta consigo um sentido de frivolidade e indecisão, que subverte a sua complexidade. Apesar de os homossexuais serem mais frequentemente referidos como "
gays" e "lésbicas" e os heterossexuais como "straights", a palavra mais frequentemente usada para referir os bissexuais não é "bissexual" – isto, é claro, quando eles não são imediatamente corridos com termos depreciativos como "fence-sitters"(2), "switch-hitter"
(3), "AC/DC", etc..
A palavra "bissexual" parece instigar os investigadores a provarem que os humanos são incapazes de desejar homens da mesma forma que desejam mulheres. Muitos
gays
e lésbicas, tal como muitos heterossexuais, presumem que os bissexuais são na realidade homossexuais que se recusam a abdicar dos privilégios da heterossexualidade, ou heterossexuais que gostam de "petiscar" ou "variar". E é possível que haja pessoas que se encaixam nestas categorias.
Mas, então, que dizer das pessoas que genuinamente se apaixonam por pessoas de qualquer um dos sexos, pelas suas mentes e pelos seus corpos? Será que o rótulo "bissexual" descreve quem elas são verdadeiramente? Talvez os que sempre foram monogâmicos e tiveram relações tanto com homens como com mulheres se coloquem à margem da auto-categorização. Mas vivemos numa sociedade obcecada pela uniformização, por isso é necessário que haja um nome mais evocativo, para que possamos evitar a humilhação de sermos transformados em ratos de laboratório, enquanto observamos o modo como a sexualidade é reduzida a experiências nas quais os órgãos genitais das pessoas estão ligados a eléctrodos. Que nome poderia ser esse? Enquanto lésbica, não estou na melhor posição para o criar. Por isso, deixo essa tarefa para os leitores da
The Nerve cujos amores e desejos desafiam a categorização. Talvez a adaptação do nome de um bissexual famoso dos livros de história seja um bom ponto de partida: Sócrates. Alexandre, o Grande. Catallus. Virginia Woolf. Colette. Alfred Kinsey, ele próprio.

(1) Denominado
Human Biodiversity Institute.
(2) A expressão não tem tradução literal em português, mas o seu significado é equivalente a "pula-cercas".
(3) Mais uma vez, não há tradução literal para a expressão. Aproxidamente, poderíamos traduzi-la por "troca-tintas".

Comentários:
Parece-me um blog deveras interessante e para se ler com tempo e mta calma.
Parabens. Certamente que voltarei mais vezes.
 
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