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terça-feira, 8 de março de 2005

Não finja que não vê. 

Calçada de Carriche

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada,
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.

Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.


António Gedeão, Poesias Completas (1956-1967)


Algumas reflexões a propósito do Dia Internacional da Mulher

A violência infligida sobre as mulheres e as raparigas é um flagelo que viola, prejudica ou anula o direito das mulheres aos seus direitos humanos e às suas liberdades fundamentais.

Os maus-tratos físicos e psicológicos são um dos principais problemas com que as mulheres se deparam actualmente, mesmo nas sociedades ditas modernas.

A violência física é a principal causa de morte e invalidez nas mulheres entre os 16 e os 44 anos na Europa (dizimando mais vítimas do que o cancro ou os acidentes de viação).

A violência sobre as mulheres reveste-se de múltiplas faces: violência ou tortura psicológica, violência física (incapacitante, desfigurante ou mesmo mortal), violência económica, violência espiritual, violência sexual, assédio (sexual e moral), ameaça e tantas outras...

A agressão física pode ser caracterizada por qualquer comportamento, que utilize força física, cuja consequência são danos corporais ou destruição da propriedade.

A agressão sexual está relacionada com actos sexuais não consentidos ou que visam humilhar o parceiro em relação ao seu corpo, desempenho sexual ou sexualidade.

A agressão psicológica manifesta-se através de intimidação, da humilhação, das ameaças, das agressões verbais, do isolamento social e da dependência financeira forçada.

A violência doméstica não é um incidente isolado ou individual, mas sim um padrão de eventos que se repetem de forma cíclica.

A Organização Mundial de Saúde estima que entre 10 e 69 por cento das mulheres no Mundo sejam sujeitas a alguma forma de violência. Na Europa, uma em cada cinco mulheres sofre, pelo menos uma vez na vida, agressões no espaço doméstico.

O agressor é geralmente do sexo masculino, mas a violência entre lésbicas tem aumentado assustadoramente. O crime é quase sempre praticado na residência comum.

A faixa etária mais afectada pela violência doméstica é dos 26 aos 45 anos.

Os filhos das mulheres vítimas de violência doméstica são, frequentemente, observadores passivos dos maus tratos perpretados contra as mães, passando a ser, também eles, vítimas de violência.

Em Portugal morrem 5 mulheres todos os meses em consequência de violência doméstica.


Do número total de afectados pela pobreza em todo o mundo (1,3 mil milhões de pessoas), 70% são mulheres.


As mulheres continuam a ser vítima de discriminação no acesso ao emprego e à formação profissional. Embora as estatísticas revelem um maior número de desempregados entre os homens, são as mulheres as mais afectadas na recuperação dos seus postos de trabalho.

A remuneração salarial das mulheres é inferior à dos homens. Em alguns países da União Europeia, por trabalho igual elas chegam a receber menos 15% do que eles. Em Portugal, a diferença da remuneração atinge os nove por cento. No Mundo, segundo dados da OIT, as mulheres ganham, em média, dois terços do que ganham os homens.

As mulheres continuam a suportar o grosso das tarefas domésticas, trabalho não pago.

Dos 192 países do Mundo, apenas 12 são governados por mulheres. Em Portugal, dos 230 deputados da Assembleia da República, menos de um quarto são mulheres (47 deputadas).


No acesso à cultura e à alfabetização, as mulheres são as mais penalizadas a nível mundial. Muitas meninas são privadas de ir à escola, ficando assim impedidas de melhorar as suas condições de vida e de exercer cargos bem remunerados. Em alguns países do mundo, a escolaridade está mesmo vedada às mulheres.


Aproximadamente 48% dos adultos com HIV/SIDA no mundo são mulheres, que estão cada vez mais vulneráveis - cerca de 60% das transmissões acontecem no sexo feminino, sobretudo entre os 15 e os 24 anos. Muitas dessas transmissões acontecem porque as mulheres não conseguem impor aos parceiros sexuais o uso do preservativo ou simplesmente porque ignoram a existência que da doença, quer dos meios de prevenção.


Mais do que nunca, a violação é usada como arma de guerra. Nesta prática, milhões de mulheres são forçadas a manter relações sexuais com um sem número de parceiros, com o objectivo de lhes arrancar a dignidade moral e sexual e de as exterminar enquanto portadoras da identidade do seu povo. Mas esta prática tem também como reverso a propagação da Sida entre as mulheres, vítimas fáceis e forçadas desta doença.


As mulheres homossexuais sofrem, muitas vezes, dupla discriminação (por serem mulheres e por serem lésbicas).

A violência entre casais de lésbicas (e também de gays) é considerada o terceiro risco mais importante para a saúde d@s homossexuais.

Numa cultura onde a homossexualidade carrega um elevado grau de estigma, assumir-se como vítima de violência doméstica perpetrada por um parceiro do mesmo sexo torna-se extremamente difícil.

As associações de protecção das vítimas de violência doméstica não estão, ainda, preparadas para dar o apoio específico a estes casos.

Na maior parte dos casos, as lésbicas que sofrem maus tratos físicos e psicológicos omitem essas situações, por recearem expor a sua sexualidade e serem vítimas de preconceito e/ou por se encontrarem em especiais situações de dependência económica. Lembro apenas que muitas delas são rejeitadas pelas famílias, ficando na dependência das mulheres com quem mantêm relacionamentos. Em caso de abuso, essas lésbicas estão numa especial situação de precariedade.


Hoje comemoramos o Dia Internacional da Mulher, mas para muitas delas não será um dia diferente. O quotidiano de tantas e tantas "Luísas" repetir-se-á ao longo das suas vidas, a não ser que alguém faça alguma coisa por elas.

Comemorar este dia sem densificar o seu significado não tira nenhuma mulher da miséria, dos ambientes familiares degradados, da ignorância, não a protege contra a violência, não lhe dá o tratamento paritário que merece, não impede que ela seja violada, não subtrai o seu nome dos obituários de amanhã e dos dias que se seguirão. Para isso é preciso acção, compromisso, educação para a cidadania e, acima de tudo, respeito.

É urgente que todos tomemos consciência do que se passa à nossa volta e do que se passa nas nossas vidas.

É urgente.

Ao menos hoje, não finja que não vê.



Vítima de violência doméstica, YWCA Women's Shelter, Bridgeport, Connecticut (USA)
Fotografia de Annie Leibovitz, publicada no livro Women (1999)

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