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terça-feira, 18 de janeiro de 2005

Explica-me os morangos. 

- Explica-me os morangos.
- Os morangos?

(Ele quer que eu lhe explique "os morangos"?)

- Os morangos não se explicam. Quando muito, podem descrever-se. Olha, o mesmo se passa com a saudade. Não se explica. Mas também não se compreende. E também não se descreve, porque cada um sente-a de forma diversa, mas única.

(...)

- Percebeste alguma coisa do que eu disse?

(...)

- Explica-me a saudade.

- Hum... Deixa ver...

(Porque é que ele só faz perguntas difíceis?)

- A saudade é um aperto no peito. É uma aridez. Quando sentes saudade sentes-te só.
- O que é estar só?
- É não ter ninguém com quem falar.
- Então o meu cão está só.
- O teu cão? Porquê?

(!)

- Porque não tem ninguém com quem falar.
- Mas os cães não falam, ladram.
- O meu cão fala. Só que eu não percebo o que ele diz porque não sei falar a língua dele. Quando for mais crescido vou para uma escola aprender. E tu, sabes falar com o meu cão?
- Receio bem que não. Mal consigo comunicar com os homens, quanto mais com os cães!
- Mas tu já és crescida. Não andaste na escola?
- Sim, andei.
- E não sabes falar com o cão?
- Na escola não se aprende língua de cão.
- Como é que sabes?
- Porque sei. Porque não há nenhuma disciplina com esse nome.
- Como é que sabes que não há nenhuma disciplina com esse nome?
- Sei porque quando eu andava a estudar não havia.
- Tens saudades? Da tua escola?
- Tenho... Muitas.
- E dos meninos?
- Dos meninos também. E dos professores, dos funcionários.
- Não os vês há muito tempo?
- Há imenso tempo. Tanto que já nem sei.
- Não te lembras?
- Não.

(...)

- Então, não me explicas a saudade?
- Explico.

(Explico?!)

- Mas tu disseste que a saudade não se explica.
- Pois disse. Mas vou tentar explicar. Não sei se vou conseguir.
- Ora tenta...
- Está bem. Olha, a saudade é como uma cova na areia. O vento faz covas na areia, não faz?

(Ele confirma que sim com a cabeça.)

- Pois é, mas quem faz a cova da saudade não é o vento, é o tempo. E depois quando nós estamos na praia vamos enchendo as covas de areia com água do mar, não é?

(Novo acentimento.)

- Ora bem... Quando te recordas de uma pessoa com saudade, também enches a cova da saudade, não de água, mas com memórias, compreendes?

(Olha-me atentamente, os olhitos esbugalhados, sorvendo cada palavra minha.)

- Só que por muita água que deites na cova de areia ela nunca fica cheia, pois não?
- Não, porque a água escorrega pelos grãos!
- Exactamente. Com a saudade, também é assim. Tentas não esquecer a pessoa, enchendo a cova com recordações, mas as recordações também se perdem por entre os grãos de tempo...
- E a cova da saudade nunca se enche.
- Pois não. A cova da saudade está sempre aberta, no teu coração. Nunca consegues enchê-la, nunca consegues fechá-la. É como que uma ferida aberta.

(...)

- Bem, espero que tenhas ficado com uma ideia do que é a saudade.
- Hum... Acho que fiquei. Mas posso fazer uma pergunta?
- Sim, claro.
- Porque é que em vez de enchermos a cova com água não enchemos com cimento? Assim o cimento não escorre pela areia e a cova fica fechada para sempre!

(Olhei-o nos olhos, com ternura.)

- Mas é claro que nós também fechamos covas de saudade com cimento! Fazemo-lo sempre que queremos selar uma parte da nossa vida, sempre que queremos colocar uma pedra sobre determinado facto da nossa existência, sobre a lembrança de certa pessoa... Fazemo-lo com grandes pazadas de cimento, energicamente, quanto mais depressa melhor. Nunca me tinha lembrado disso... Mas é totalmente verdade!

O Vasco, cinco anos, fez-me compreender o que é a saudade. Obrigou-me a dar explicações, a encontrar uma imagem, um vocabulário, fez-me teorizar.

Às vezes, é bom teorizar sobre as coisas que acontecem na nossa vida. Sabendo explicá-las, a nossa cabeça torna-se aliada do coração, porque deixa de ser só ele a sentir, para passar a ser ele - o coração - a sentir e ela - a cabeça - a entender.

Continuei a passear com o Vasco e com o cão. A manhã começou escura, mas lentamente o sol despontou e o final de tarde fez-se agradável, em tons de cor de laranja e lilás. As nuvens continuavam o seu percurso célere, graças ao vento...

- Não vamos ter com os meus pais?
- Sim, claro, vamos que já é tarde.
- Posso fazer só mais uma pergunta?
- Podes.
- Também tens uma cova, não tens?
- Uma cova?
- Sim, de saudade.
- Tenho...

(Bolas, será vidente?)

- Mas... mas... como sabes?
- Hum... é que pareces cansada. Deve ser por estares sempre a tentar enchê-la de água. Estás triste. É por não conseguires tapá-la, não é?
- É.

(Silêncio constrangedor.)

- Olha, deixa lá, não chores por causa disso. Se fechasses essa cova, o tempo ou o vento ou lá o que é abria outra, não era?
- Era, Vasco. O vento ou o tempo ou as pegadas dos outros, sei lá!.... Estão sempre a abrir covas no meu coração...
- Eu tenho um balde de brincar na praia. Se quiseres empresto-to para encheres com água.

Obrigada, Vasco. Obrigada por quereres ajudar-me. O teu pequeno balde será fundamental, bem como são os teus pequenos olhos atentos, brilhantes, geniais. Obrigada pela lição de hoje.

- Passeamos juntos o cão amanhã?

O Vasco abraça-me, dá-me um beijo rápido e desata a correr, ladeado pelo cão, em direcção ao pai.


Nota: Este post foi repescado daqui e é dedicado à Sara Cacao. Ela sabe porquê.

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