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domingo, 27 de junho de 2004

Uma Marcha a Preto e Branco 

Sentei-me no computador. Já sabia todas as palavras que iria usar. Faltava apenas transferi-las da mente para o teclado e daí para a net…
Não vi nada nas notícias ontem sobre a Marcha, apenas uma nota de rodapé num bloco informativo tardio da SIC, o suficiente para saber que se fez. "Fez-se - pensei - e só o ter sido feita já é uma vitória!".
Por isso vinha aqui determinada e decidida a deixar uma palavra simultaneamente de apoio, incentivo e agradecimento a todos quantos tornaram a Marcha possível.

Antes de abrir o bloggar porém, decidi fazer uma pequena ronda pelos sites de alguns jornais da nossa praça, para ver se diziam algo sobre o evento. Confesso que ainda estou irritada com o que vi e li! Quase nenhuma referência às tão propagadas ideias que cada uma das cores do arco-íris significava, quase nenhuma nota sobre as razões de luta… e as poucas que vi vinham em fim de página, estilo nota de rodapé. As parangonas essas ficaram reservadas para uma lavagem de roupa suja por causa da organização, feita com água jorrada de bandeiras políticas!

Quem me lê sabe que normalmente sou contida nos meus comentários, e sabe também que respeito e admiro ao máximo todos aqueles que dão a cara por uma causa, principalmente se essa causa for a causa LGBT, pelas lutas adicionais que sempre lhe estão associadas. Mas sinceramente, desta vez, não consigo outro registo de discurso senão este:

I

Meus senhores (entenda-se este vocativo como deve ser entendido, um vocativo genérico para os activistas em geral, mas para ninguém em particular), já alguma vez pararam para pensar o que é isto da causa LGBT? Quais os seus objectivos? Quais as suas necessidades?

II

Meus senhores, acham verdadeiramente que, perante tais objectivos, faz sentido existir uma panóplia (para não lhe chamar parafernália) de associações LGBT tão grande como a que existe no nosso país (não vale a pena o argumento de que noutros países também é assim, os maus exemplos nunca foram bons argumentos!)? O que ganha a causa com tamanha dispersão de esforços e recursos? Sabem o que ganha? Nada!!! Pelo contrário, perde credibilidade, perde prestígio e perde sentido. Acham verdadeiramente que alguém vos levará a sério na vossa luta pela aceitação da diferença, quando no seio das vossas associações não se aceita a diferença, quando à mínima contrariedade decidem espartilhar-se e formar mais uma associação?!

Obviamente é compreensível e, mais do que isso, defensável, que as atenções não se foquem todas num único alvo ou numa forma de actuar. Obviamente que uma iniciativa como a "rede ex aequo" (que, sem qualquer receio de ser apelidada de tendenciosa excluo de todo este discurso, porque, resulta bem clara a distanciação que a associação mantém de todas estas "lutas paralelas") faz sentido, porque se focaliza nos jovens; assim como faz sentido que exista uma área de actuação mais atenta às especiais exigências e interesses das lésbicas, ou outra dos gays ou dos transgéneros, e outra que dê uma maior atenção à intervenção política, e outra à intervenção social, e outra à visibilidade nos media…. Mas tudo isso, desculpem que vos diga, só faz sentido enquanto partindo de um tronco comum, de uma única raiz e com um único objectivo!
É claro que não estou aqui a fazer a apologia da manada. É claro que não somos todos obrigados a pensar da mesma forma, a termos os mesmos gostos e interesses, ou a mesma cor política, simplesmente porque temos a mesma orientação sexual! Obviamente que não! Mas somos isso sim, e vocês, caros activistas, mais do que ninguém, obrigados a aprender a aceitar, tolerar e conviver com todo o tipo de diversidades, sob pena de terem o vosso discurso minado à partida pelo vosso próprio comportamento!
Nunca compreendi, e ainda hoje não compreendo a razão de ser de tamanho número de associações LGBT! Se alguém me souber abrir os olhos agradeço! Até lá ficarei sempre com esta firme convicção de que tudo seria muito mais fácil, mais produtivo e mais visível se existisse uma única associação dívida em diferentes áreas de intervenção!

III

Meus senhores, caros activistas, o vosso trabalho merece-me obviamente todo o respeito e mais do que isso, o meu agradecimento. Porque tenho a nítida convicção de que se um dia finalmente sair da penumbra e encontrar um mundo que me aceite em todas as minhas diferenças o deverei muito mais a vós, ao vosso trabalho e aos vossos sacrifícios do que a mim própria. Nunca deixarei de vos reconhecer esse mérito e de vos render a minha homenagem por isso.
Mas os méritos têm também o reverso da medalha, a responsabilidade! A responsabilidade acrescida de quem representa uma massa anónima, silenciosa e, mais do que isso, muito muito muito heterogénea, composta de pessoas de diversas etnias, credos, religiões, convicções políticas, idades, culturas e interesses… Mas acreditem, meus senhores, se essas pessoas quiserem fazer valer as suas etnias, credos, religiões, convicções políticas, idades, culturas ou interesses, elas têm muitas e diversas formas de o fazer, e muito facilmente… Não é a vocês que vos cumpre esse papel, a vós é-vos pedido simplesmente que façam essa enorme massa silenciosa ouvir-se numa única questão: a aceitação social da sua orientação sexual. Tão só e simplesmente isso (se é que isso tem alguma coisa de simples) sob pena de colocarem em causa todos os passos em frente já dados.

...


É uma pena que para a História, desta Marcha do Orgulho fique apenas a memória desta vergonhosa cisão que existe no seio do activismo LGBT português… e que aquela que prometia ser uma marcha colorida acabe assim, numa triste mancha preta e branca.

Ah, e porque, apesar de tudo, acredito que a Marcha em si deve ter sido muito mais do que aquilo que os jornais dela disseram, e porque sei que existiram pessoas que estiveram desde o princípio empenhadas em que esta Marcha se fizesse, sem qualquer outro objectivo que não o da própria marcha: tornar visível a nossa existência e fazer ouvir os nossos interesses, as palavras que tinha inicialmente guardadas para este post não podem deixar de ser ditas, agora com ainda mais calor: obrigado por acreditarem, obrigado pela vossa coragem e pelo vosso estoicismo! É óbvio que fazer melhor é sempre possível, mas fazer só por si é já uma conquista! Por isso, apesar dos contratempos externos e internos, nunca vacilem, porque a tal "massa" pode ser silenciosa mas está muito atenta e com muita esperança nos vossos passos!

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