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domingo, 21 de dezembro de 2003

Um post longo e entediante sobre Catolicismo e Homossexualidade, de leitura não aconselhável a quem já esteja cansado do tema. 

Conservadorismo. Já falei aqui dele, hoje volto a falar. Para muitos, ser de direita, advogada e católica praticante poderia traduzir-se numa expressão ("fascista, aldrabona e papa-hóstias") ou numa simples palavra: conservadora. Serei conservadora, então.
Desde sempre que me lembro de ir à Igreja. Fui baptizada aos dois meses, fiz a Primeira Comunhão, a Profissão de Fé, o Crisma. Vou à Missa, por vezes, dois dias por semana. Participo activamente na minha e noutras paróquias. Por volta dos meus quinze anos, comprei a recitação do Rosário, pelo Papa João Paulo II, em cassetes, para rezá-lo em conjunto com ele sempre que me apetecesse. Aos dezassete anos, já havia lido todos os livros da Bíblia. Dos meus momentos de oração, fazem parte muitos Salmos, orações retiradas do meu livro preferido. Quando vou em viagem a essa hora, ouço e acompanho quase sempre a recitação do Terço na Rádio Renascença, às 18h30. Se estiver em casa dos meus avós, este ritual é feito em família. Quando o sono não vem, refugio-me na oração para melhor aproveitar as horas. Na Quaresma, faço muitas vezes a Via Sacra. Na Sexta-Feira Santa, às 15 horas, nuns minutos de oração e recolhimento, medito na Paixão de Cristo. No Ano do Jubileu assisti à Missa todos os Domingos, o que me permitiria alcançar a indulgência plenária, caso tivesse comungado nessas Missas. Na família da minha mãe, há um tio bispo e um outro que é sacerdote. Colecciono livros de orações do início do século, que vou comprando em alfarrabistas, um pouco por todo o lado…
As referências à diversidade de presenças/acontecimentos na minha vida relacionadas com a Igreja Católica poderia continuar. Mas não vale a pena. Provavelmente, a estas horas estão a imaginar-me como um Eusebiozinho Silveira, que Eça de Queirós tão bem retrata n'Os Maias: uma sumidade na doutrina, com a cartilha na ponta da língua, molengona e taciturna, com expressão grave e séria, de quem tem mentalidade de abade… Mas não. Faltou-me o método. Se "é preciso método - as crianças dormem à noite", como afirma Afonso da Maia pela pena do Eça, comigo isso nunca aconteceu. Cá em casa, cada um deita(va)-se quando quer(ia). Daí que admito ter uns laivos de Teodorico Raposo, ainda que sem Relíquia e sem Titi Patrocínio, mas isso é outra história...
De facto, penso que para estar inserido numa comunidade como a Igreja Católica, é necessário saber compreender os "fenómenos de massas". E ter, naturalmente, sentido crítico. Muito sentido crítico.
É por isso mesmo que tenho o discernimento e a frieza necessários para viver deste modo sem cair em fundamentalismos nem exageros. Acredito profundamente nos ideais cristãos e católicos na sua essência, enquanto princípios, mas não com todas as formas de explicitação que lhes foram sendo dadas ao longo dos tempos. Porque os princípios vêm de Deus, e a doutrina vem dos homens. Ainda que sejam Papas...
O dogma da infalibilidade do Papa (que afirma que este é infalível quando se pronuncia quanto a questões de doutrina) é o único em que não consigo aceitar sem reservas. E os dogmas, supostamente, enquanto dogmas, significam apenas isto: crê-se sem se questionar. São exemplos de outros a Santíssima Trindade, a Imaculada Conceição, a Assunção de Nossa Senhora ao Céu. Nestes, creio profundamente. Quanto ao outro...
E isto porque não consigo conceber a ideia de que um Papa que proíbe o uso de preservativo, que não admite o divórcio, que condena a fornicação (estou a usar os termos doutrinários, pelo que fornicação significa qualquer contacto sexual fora do matrimónio) e a homossexualidade seja absolutamente infalível. Não consigo, ponto. E olhem que já muitos mo tentaram explicar... Enfim, são limitações da minha condição humana/pensante... Adiante.

Rezam assim os pontos 2357 a 2359 do Catecismo da Igreja Católica:

A homossexualidade designa as relações entre homens ou mulheres, que experimentam uma atracção sexual exclusiva ou predominante para com pessoas do mesmo sexo. Reveste formas muito variáveis, através dos séculos e das culturas. A sua génese psíquica continua, em grande parte, por explicar. Apoiando-se na Sagrada Escritura, que os apresenta como depravações graves, a Tradição sempre declarou que «os actos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados». São contrários à lei natural, fecham o acto sexual ao dom da vida, não procedem duma verdadeira complementaridade afectiva sexual, não podem, em caso algum, receber aprovação.

Um número não desprezível de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundas. Eles não escolhem a sua condição de homossexuais; essa condição constitui; para a maior parte deles, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á, em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar na sua vida a vontade de Deus e, se são cristãs, a unir ao sacrifício da Cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar devido à sua condição.

As pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Pelas virtudes do autodomínio, educadoras da liberdade interior e, às vezes, pelo apoio duma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem aproximar-se, gradual e resolutamente, da perfeição cristã.


Estes três parágrafos são cortantes para alguém que, como eu, acredita e quer viver segundo o modelo cristão e católico. Li-os pela primeira vez em 1993, mas desde então até hoje, meditei inúmeras vezes sobre eles e, muito provavelmente, continuarei a fazê-lo ao longo da minha vida. Foi exactamente a partir daqui que passei a ter consciência do “pecado” da homossexualidade. Até então, sabia que apenas uma minoria de pessoas era homossexual, que os homossexuais não podiam ter filhos entre si, que não podiam casar, etc.. Não sabia, no entanto, que devíamos ter compaixão "deles". "Deles" porque na altura nunca tinha sentido atracção sexual por ninguém, homem ou mulher. Com o passar dos tempos, por volta dos meus 15/16 anos, percebi que aquele "eles" era, afinal, "nós". Perante isto, que fazer? Valeu-me a lucidez de espírito que, felizmente, Deus me deu. Passei a encarar estes três parágrafos de outra forma.
Li por diversas vezes as Sagradas Escrituras e sei que as passagens a que se refere o parágrafo 2357 que, naquela interpretação, apresenta os actos de homossexualidade como, cito, depravações graves, podem ser objecto de outra interpretação. [Exemplo muito vivo desta disparidade de interpretações dos referidos textos (mesmo entre os teólogos), mas relativamente a outros aspectos que não a homossexualidade, é a Igreja das Testemunhas de Jeová, que não acreditam na Virgindade de Maria após o nascimento de Jesus, nem que Jesus seja o único filho de Maria e José, etc. (não vale a pena estar aqui a enumerar, porque não vem ao caso) ]. A outra interpretação que se dá a essas passagens (que, praticamente, se resumem à destruição das cidades de Sodoma e Gomorra - Génesis 19,1-29), pode ser bem diversa e nada ter a ver com a homossexualidade. Mas um dia, se calhar, voltaremos a falar disso. Só por curiosidade, há até quem afirme que Cristo seria, possivelmente, homossexual, invocando como prova a afectividade que o aproximava de João, o seu discípulo predilecto, mais jovem do que Jesus uns bons anos… Mas isto são "outros quinhentos"...

Pasme-se. Quando, num momento de desespero, contei em confissão ao sacerdote que era homossexual, não recebi em troca palavras de censura e compaixão. Pelo contrário, quando demos conta, estávamos ambos a falar de castidade. Pelos vistos, não era só a mim que tal tarefa se revelava difícil. O padre com quem falava, acabou por confessar que até bem perto dos quarenta anos, tinha mantido relações sexuais esporádicas com mulheres, cedendo, como dizia, à tentação da carne. Não consegui reprovar aquela atitude do padre. Eu, que defendo, ainda hoje, a castidade e o celibato dos sacerdotes enquanto cumprimento do seu sacramento de ordenação, face àquela revelação, só consegui esboçar um sumido "É difícil, não é?", que obteve por resposta um aceno de cabeça: "É quase sobre-humano", disse ele.
Sobre-humano. Que vai para além da natureza do homem. Que o supera. Que lhe é inatingível. Quase sobre-humano. Que, nalguns casos, é atingível.
O conselho do meu interlocutor foi o de tentar manter castidade, nas palavras, nas obras e nos pensamentos. O de tentar. Mas logo a seguir disse-me que, quando sentisse necessidade de confessar novamente o mesmo pecado, não era necessário descrevê-lo, bastando que dissesse que tinha cometido "aquele" pecado, que ele já sabia qual era... Isto demonstrou que, se não resistisse, podia ser novamente perdoada. Este momento da confissão teve um enorme significado para mim. Tirou-me a lama dos olhos e fez-me ver que os braços do meu Deus estão sempre abertos para me receber. Fez-me ver que o meu Deus é grandioso e magnânimo, ao ponto de aceitar que, mesmo que não atinja a perfeição por essa via (da suposta castidade no que concerne aos meus actos homossexuais), há muitas outras vias para o fazer.
Não será necessário dizer que não resisto à "tentação da carne" [que expressão infeliz, Deus meu!], pois não? ;) Por isso mesmo é que procuro atingi-la nos outros aspectos, o primeiro dos quais, pondo os meus talentos ao serviço da Igreja da qual faço parte, pondo-os ao serviço de quem deles precisar. Ecoam no meu pensamento muitas vezes as palavras de São Paulo: "Ai de mim se não evangelizar!"
Acredito que esta evangelização não tem de ser feita apenas fora da Igreja Católica. Há muita gente no seu seio que necessita de evangelização. Um deles, é o Senhor Cardeal Ratzinger... Outros são os sacerdotes que se recusam a absolver os homossexuais em confissão. Outros são os católicos que criticam e discriminam os homossexuais, porque estes, ainda que guardem castidade, resistam à tentação da carne ou usem batina, estão ainda muito longe da perfeição. Possivelmente, mais do que eu, mas disso não tenho a certeza...
Esta é uma das razões que me leva a não desistir de ter um papel activo dentro da Igreja Católica. Porque penso que é possível evangelizar estas pessoas. Estou convicta que a minha postura contribuiu para criar no padre que me confessou, senhor dos seus 65 anos, a convicção de que os homossexuais não são um bando de homens pervertidos como os retratados na passagem bíblica que há pouco evoquei. A minha e não só a minha, pois há um outro homossexual que tem também funções nessa paróquia. Demonstramos que, ainda que sejamos gays e cometamos o "pecado contra a natureza", somos pessoas bem intencionadas, justas, que sabem dar sem receber, que procuram, todos os dias, fazer do mundo em que vivemos um mundo um pouco melhor, à semelhança do que fez Cristo.
O segundo motivo que me leva a permanecer no seio da Igreja Católica é o facto de não acreditar nos célebres três parágrafos do Catecismo [estou a candidatar-me à excomunhão, mas tudo bem...]. Não acredito que aquelas palavras transmitam a visão que Deus tem dos homossexuais, que também são Seus filhos e que foram criados à Sua imagem. Transmitem antes, a visão dos Seus bispos, cardeais, dos seus Papas, que também são Seus filhos, criados à Sua imagem. Ou seja: ninguém, nem o Papa, está livre de errar. Ninguém é infalível. Porque todos somos humanos, e a nossa perfeição pode estar próxima da de Deus, mas não a alcançará nunca, porque Ele é divino e nós nunca o seremos.
É por tudo isto que, muito mais do que ouvir a expressão "Eu te absolvo dos teus pecados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo", anseio muito mais pelo dia em que o Papa peça perdão a todos os homossexuais, por ter nos ter provocado tanto sofrimento ter apelado à compaixão por nós, muito mais do que ao respeito, ao amor e, sobretudo, à nossa não diferenciação enquanto cristãos. Já o fez em relação à Santa Inquisição. Um dia, chegará a nossa vez. Espero que esse dia esteja próximo. Se não poder assistir a ele na Terra, tenho a certeza que vou vê-lo ao colo de Jesus, de mão dada com a Assumida Mente.


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