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quarta-feira, 17 de dezembro de 2003

Sim, creio! 

Do órgão soaram as primeiras notas. As pessoas começaram a organizar-se em duas filas no corredor central da Igreja, como sempre… Já não me lembro o que cantavam… Sei que, nesse momento, o meu pensamento voou. Pela primeira vez nessa semana dei por mim a vacilar… Seria mesmo aquilo que eu queria? Estaria eu certa do caminho que tomava? Valeria a pena pôr em causa todo o percurso até então percorrido?

Ajoelhei-me e fechei os olhos. Ensaiei o início de uma oração, mas o turbilhão de pensamentos e emoções que me invadiam não me deixavam concentrar… As vozes arrastadas ressoavam dentro de mim como se do eco de frases que havia já lido e ouvido sobre o assunto se tratassem… Revi, em fracções de segundo, como a minha vida havia sido conduzida até ao princípio daquela semana: a luta por um ideal de perfeição, os passos dados com os olhos postos num determinado modelo de vida… num determinado modelo de homem – Cristo!...
Abri os olhos e olhei em volta. A fila para a comunhão diminuíra já consideravelmente. Sentia-me impelida a ir também eu cumprir o meu ritual de tantos anos… Mas a minha consciência não mo permitia… Nunca mais!... Havia cometido um pecado contra a natureza, pecado mortal… pecado que, de acordo com o Catecismo da Igreja Católica, “brada aos céus” e, por isso mesmo, aquele ritual estava-me vedado…

Compreendo que seja difícil para os agnósticos, ateus, não católicos ou católicos desiludidos perceber o que quero dizer ao afirmar que a grande luta interior que tive que travar comigo mesma quando concretizei a minha homossexualidade no beijo que vos descrevi e em tudo o que se lhe seguiu (não é preciso fazer um desenho, pois não?) foi a luta da compatibilização de todos os dogmas, através dos quais norteara a minha vida, com a constatação incontornável de que era lésbica, estava apaixonada e não conseguia, porque não queria, resistir a essa relação.

Desde que me lembro de mim enquanto “ser pensante” me recordo que sempre acreditei que algo superior a nós existiria. Sem temores e sem receios, mas com a segurança de quem sabe que, por muito mal que tudo corra, haverá sempre algo a “zelar” por nós.
Cresci com essa certeza. E em muito tal certeza contribuiu para a construção da pessoa calma, confiante e persistente em que me tornei… Mesmo nas adversidades que a vida já me foi dando a conhecer nunca desesperei. Sempre soube que havia algo mais forte do meu lado e não me enganei…


… Releio as últimas linhas… Parecem-me tão vazias de significado. Tão aquém do que quero dizer… Não me peçam para explicar a fé… A fé, como o amor, não se explica. Se nasce connosco ou nos é culturalmente induzida não sei. Sei que nos incendeia a alma sem que nunca, jamais, consigamos materializá-la devidamente, nem que seja em palavras…

Coisa diferente é a Religião. É verdade que acredito em Deus porque acredito ponto. Sem argumentos e sem falsas lógicas … simplesmente porque algo dentro de mim me diz que Ele existe… No entanto, admito que a questão já possa ganhar contornos de debate se afirmar que me habituei, desde sempre, a personificar essa ideia de Deus na imagem de Cristo, a admirar a sua vida e a de sua Mãe… e a sentir-me inserida na Igreja Católica.

Reconheço, sem qualquer ressalva, que a Religião abraçada por uma pessoa nada mais é do que uma questão cultural. Sou Católica porque, aos quatro ou cinco anos, gostava de fazer com a minha avó, ao raiar da alva, o caminho para a Igreja, gostava de observar o fervor daquela gente enquanto rezava… algumas velhotas até choravam de comoção de tão imbuídas que estavam nas suas orações… e isso mexia comigo…
Entretanto fui crescendo. A catequese proporcionava momentos de reflexão, auto-conhecimento e, acima de tudo, a construção e o aprofundamento de amizades que a lufa-lufa da escola nunca proporcionou… Criei nesses grupos de adolescentes e jovens católicos um bom e verdadeiro grupo de amigos que, ainda hoje, se mantém…

Cresci, por isso, a olhar a Igreja Católica (e os católicos em geral - porque assim eram, na sua maioria os que me rodeavam) como uma comunidade de boas e bem intencionadas pessoas, de valores bem definidos e que procuravam, no seu dia-a-dia, colocar em prática os ensinamentos que os Textos Sagrados nos transmitiam.

Não se pense com isto que era uma pacífica seguidora do sistema. De forma alguma! O espírito crítico é em mim contemporâneo da fé e do lesbianismo. Sempre reconheci falhas na Igreja Católica. O facto de as mulheres não poderem celebrar a Missa ou os Padres serem obrigados ao celibato, só para citar dois exemplos, são situações com as quais nunca concordei… E já nem sequer vou falar da Opulência em que uma certa Igreja vive, que reconheço vergonhosa!

No entanto, porque sempre acreditei que a melhor forma de combater algo seria internamente, sempre discuti tais assuntos no seio da Igreja. Mesmo durante o tempo em que dei catequese tentei transmitir aos que me ouviam o espírito crítico de quem, sendo católico, não pode esquecer que muitas das regras que a Igreja nos impõe são resultado de cogitação humana e não divina, consequentemente não perfeita!

Confesso que, quando a homossexualidade deixou de ser em mim um sentimento e se transformou em algo bem concreto e palpável (ez ez ez), num primeiro momento me apeteceu quebrar correntes e afastar-me completa, total e irremediavelmente da Igreja Católica, quebrar todos os laços e abandonar o barco...

Graças a Deus, os valores culturais enraizados não o permitiram… E muito menos o permitiu a minha forte convicção de que a religião, para que possa ser cultivada e partilhada não pode, de modo algum, ser anárquica, antes tem de estar sustentada em valores, princípios e regras através das quais nos possamos orientar… Se tivesse abandonado a Igreja Católica teria sido uma parte de mim que me teria sido totalmente amputada… Mas também não podia deixar fugir a oportunidade de ser feliz que a vida me oferecia de mão beijada… Foi complicada, chegou mesmo a ser angustiante, a opção!

Ainda pensei recorrer ao conselho de um Padre, falar com ele, ouvir o que teria para me dizer… Mas convivi demais com eles para saber perfeitamente que palavras utilizariam… Falar-me-iam de abstinência, castidade, controlo de sentimentos, sacrifícios, entrega a Deus… Frases-feitas vazias de sentido para quem está inflamadamente apaixonado, para quem sabe que encontrou aquilo por que sempre procurara… para quem, pela primeira vez na vida, se sentia verdadeiramente feliz!

Pensei imenso sobre tudo isto… Pensei… Repensei… E quase deitei tudo a perder… Até que compreendi que não havia nada por que optar. Compreendi que seria muito mais católica, porque muito mais calma, de bem com a vida e, consequentemente, muito mais disponível para “amar aos outros como a mim mesma”, ao lado da Mente Assumida do que angustiada e deprimida, auto-flagelando-me num isolamento em que jamais me sentiria eu própria!...

Tenho pena que os homens que ditam as regras na Igreja Católica não compreendam isto… Tenho pena que quem faça a doutrina não compreenda nada: os sentimentos, os afectos e o verdadeiro Amor. Lamento profundamente que os porta-vozes da Igreja releguem sempre a mensagem principal que Cristo lhes deixou como herança - uma mensagem de amor e compreensão - a favor de mensagens de intolerância e, quantas vezes, ignorância…

Mas lamento também que toda a Igreja Católica seja confundida com tais homens e tais ideias, muito mais políticas do que religiosas. Chego a irritar-me quando, ao afirmar-me como Católica praticante, as pessoas me bombardeiam logo com o preservativo e o machismo e a virgindade e… mais uma enormidade de balelas que um certo núcleo de Católicos institucionalizados decidiu dogmatizar!... É pena que a generalidade das pessoas só consiga ver na Igreja os padres e os bispos, mais as suas palavras e opiniões tantas vezes infelizes… porque humanas!… A Igreja Católica é uma instituição da qual fazem parte milhões de pessoas, a maior parte delas, bem intencionadas, sempre prontas a ajudar, sempre prontas a ouvir, sempre prontas a apoiar… como Cristo lhes ensinou…

Pelo menos essa é a minha Igreja, aquela à qual pertenço e aquela na qual, quero acreditar, haverá sempre lugar para mim… Independentemente da pessoa com quem queira partilhar o meu caminho… independentemente de, respeitando as regras, me excluir de um antigo e indispensável ritual…

E enquanto observo as pessoas que avançam na fila da comunhão, dou por mim a indagar-me quantas pessoas como eu, como nós, permanecerão ainda a observar dentro das Igrejas um ritual que nos é negado... Dou por mim a perguntar-me quantas pessoas estariam dispostas a efectuar a luta pelo reconhecimento da homossexualidade no seio da própria Igreja...

Ok... bem sei o que estão a pensar... Mas a que saberiam os dias sem pitadas de utopia?!



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