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segunda-feira, 15 de dezembro de 2003

Mais do mesmo... 


Lembro-me exactamente de como passei a noite em que a guerra no Iraque teve início. Agarrada ao televisor, assistia ao directo do Carlos Fino. Ouvi o rebentar do primeiro raid aéreo em directo. Pensei para os meus botões: "Vais ter o que mereces e ver o que é bom para a tosse, Saddam. A partir de hoje, far-se-à justiça". No dia seguinte, comprei a edição "Especial Iraque" do jornal Público, que devorei de uma ponta à outra, para não me escapar nada. Durante quase três dias, não preguei olho.
Foi assim que vi esta guerra - como um acto de justiça, de libertação, de travão ao despotismo cruel de um ditador. Dito isto, não é difícil perceber que eu fui a favor da invasão do Iraque, o que me valeu algumas acesas discussões com quem vocês sabem... Cheguei a passar uma noite inteira, entre copos e muitos eloquentes cigarros, que fumava desalmadamente enquanto combatia os argumentos da Assumida Mente e de um casal amigo, a defender a minha perspectiva. Fui chamada de neo-fascista e outros impropérios só porque estava de acordo com uns certos senhores...
Hoje tomei conhecimento de que o ditador foi finalmente capturado. A minha reacção foi bem outra. Assisti à notícia enquanto golpeava o bife, impávida e serena. No fim, a minha mãe (tal como, minutos depois, faria José Pacheco Pereira, na SIC) comentava que as imagens exibidas eram de uma crueza inaceitável. Eu disse simplesmente que me traziam à memória as de um Savimbi barbaramente assassinado, que jazia num carro de mão, cadáver, já fustigado pelas moscas.
- Há gente (?) que se regozija com o espectáculo da morte e da humilhação. - concluí.
Quando reergui os olhos para a televisão, surgiu a imagem de G. W. Bush. Coincidências da vida...
Tudo isto para dizer que a minha reacção foi de indiferença. Total indiferença. Porquê? Porque não acredito, simplesmente, que se trate verdadeiramente de Saddam Hussein.
Estando ele armado, como foi descrito pelos americanos, face à iminente captura pelos americanos, que corresponderia, para Saddam, a uma humilhação muitíssimo superior à de uma (mais do que provável) condenação à morte por crimes de guerra pelo T.P.I. ou por um tribunal de guerra, não consigo conceber a ideia de que ele se entregasse sem oferecer resistência. Não creio, também, que desperdiçasse muitas balas. Uma, pelo menos, certeira, gastaria, e depositá-la-ia no seu próprio cérebro. Esta seria a atitude de Saddam Hussein. Face a isto, só o imagino a suicidar-se.
Além disso, tudo me parece coincidentemente suspeito... Esta captura surge num momento muito bom para W. Bush, por vários motivos.
1. O motivo económico.
A economia america começa a mostrar sinais de recuperação. Esta é, sem dúvida, uma excelente notícia para todos os americanos e, no fundo, para todo o mundo. Face a isto, nada melhor do que aproveitar o momento em que as atenções estão voltadas para os aspectos positivos da sua governação para dar uma notícia como esta.
2. O motivo social.
Aproxima-se o Natal. Para muitas famílias americanas, italianas, japonesas, não será um Natal qualquer. Será o primeiro Natal que viverão após a morte do seu filho, marido, namorado, irmão, tio, sobrinho, pai... morto no Iraque. Certamente que a notícia da detenção de Saddam amortecerá esta dura realidade, dando-lhes a sensação de que a vida do(s) seu(s) ente(s) querido(s) não foi desperdiçada em vão... Talvez até nem mudem o seu sentido de voto e continuem a acreditar em W. Bush...
3. O motivo político.
Na passada semana, os partidos da oposição debruçaram-se sobre a governação de Bush e os principais candidatos adversários voltam a apostar na guerra contra o Iraque como argumento de descrédito para Bush. Se até agora podiam dizer que "nem armas nucleares, nem Saddam Hussein", o discurso terá de ser revisto e outros factores negativos terão de ser encontrados. Estou certa de que não faltarão, mas não terão o impacto que este tinha.

O timming também é certeiro para os governos dos senhores Tony Blair, José Maria Asnar e Durão Barroso, pelo motivo político e para Silvio Berlusconi, pelo motivo social (se bem que, no caso do primeiro-ministro italiano, qualquer timming seria perfeito...).
Assim, da confortável posição de quem foi uma defensora assumida do conflito armado no Iraque como único meio de pôr fim à situação insustentável que era vivida naquele país, para quem muito relevaria a notícia da captura de Saddam Hussein, admito - não acredito que se trate do verdadeiro Saddam Hussein. Não nutro qualquer tipo de admiração pelo déspota, antes desprezo, mas reconheço que se trata de alguém que morrerá como as árvores: de pé. As imagens disponibilizadas, além de infelizes por revelarem à comunidade internacional o total desrespeito pelos direitos humanos por parte das autoridades americanas (mas que outra postura esperar de um país que impõe a pena de morte aos seus cidadãos), são ainda muito pouco convincentes e merecem da minha parte o completo descrédito.
A ver vamos se o tempo me dará razão ou se serei forçada a mudar de opinião. Ao contrário do que possam pensar, sou capaz de o fazer, com muita dignidade e sem quaisquer complexos. Porque, por vezes, a razão não está desde o início do nosso lado - conquista-se.
A ver vamos, senhor Bush, a ver vamos...

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