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terça-feira, 30 de dezembro de 2003

Gritos 

Foi com certeza um sorriso de indisfarçada alegria aquele que esbocei quando ela me disse que um grande amigo seu se tinha declarado homossexual. E só não lhe disse tudo o que me apetecia dizer-lhe ao ouvir que aquela revelação, longe de a ter incomodado apenas fez com que compreendesse melhor aquela pessoa e com que os laços de amizade e cumplicidade se estreitassem entre eles, porque a quantidade de gente que nos ouvia não permitiu que abordasse o assunto!

Ela é uma daquelas amigas que já nasceu connosco. Que nos acompanha desde que… Nem sabemos bem desde quando, apenas sabemos que olhando para trás ela esteve sempre lá e, olhando em frente, não conseguimos sequer conceber a ideia de que não esteja!... E, no entanto, como todos os amigos de longa data, chega a uma altura dos nossos dias em que a vida faz o favor de nos separar, e lá fomos nós, cada uma para seu lado… aumentam-se as distâncias e regalam-se os sócios da TMN à nossa custa!... Mas há assuntos sobre os quais não dá para falar por telemóvel… Ainda sou muito adepta do “olhos nos olhos”, que hei-de eu fazer?!
Foi por isso que os dias foram passando sem que nunca lhe tenha revelado a minha homossexualidade… Foi por isso, também, que os olhos sorriram quando soube que alguém se adiantara a mim na abordagem do tema. Pensei que seria uma boa oportunidade para falar sobre o assunto sem tabus e também para adivinhar a reacção do meu grupo de amigos a uma temática pouco frequente entre nós… A questão foi tratada com naturalidade quando nos contou da identidade do seu amigo, e nunca mais a ela se voltou.

Nas férias de Verão a minha amiga foi passar uma semana a casa do seu amigo gay e respectivo namorado… Ao fim dos sete dias lá regressou à cidade e ao café de sempre, para o balanço habitual de férias. À pergunta pelas suas passeatas com o N. e o namorado, a minha amiga respondeu-me com um (então) surpreendente: “Correu muito bem e eles são muito simpáticos e tudo! Mas já estava cansada de tanto gay e lésbica… Chegou a uma altura que me comecei a sentir mal. Parecia que eu é que era a diferente no meio daquilo tudo. Comecei a sentir-me esquisita ali, parecia que não estava neste mundo! Só me apetecia gritar que era hetero a torto e a direito, para que não me confundissem!
Na altura não consegui resistir e lá tive que recalcitrar: “Pois é, mas se calhar ficaste a perceber melhor como é que os homossexuais se sentem num mundo onde os hetero são a maioria!”… Na altura confesso que fiquei quase violenta, de tão desiludida que me senti com a minha amiga. Tinha-a como uma pessoa extremamente tolerante e ela saía-se com aquela do “parecia que eu é que era a diferente” e mais não sei o quê!... Ao fim de alguns dedos de conversa, a minha amiga que, além de tolerante, é inteligente e sabe ouvir e compreender aquilo que lhe dizem, estando sempre disposta a mudar de opinião, quando reconhece que a sua não é a mais correcta, lá acabou por dar o braço a torcer e reconhecer que aquela semana que tinha vivido tinha sido apenas uma pequena amostra do que é a vida de um homossexual numa sociedade maioritariamente heterossexual!

Até então. ela também era daquelas que defendia que cada um era aquilo que quisesse ser e não valia a pena falar sobre isso, a homossexualidade era um assunto da intimidade, assim como a sexulidade hetero e ninguém teria que estar a comentar fosse o que fosse da vida privada de cada um…

E foi assim até se ver do outro lado do filme, passando de maioria a minoria, de “tolerante” a “objecto de tolerância”… e aí, “desse lado da barricada”, o instinto foi gritar logo “eu sou heterossexual”, porque a sua identidade sexual passou a marcar a diferença e pesou-lhe na sua relação com os outros…

Na altura em que discutimos este assunto a actividade blogaysférica ainda dava os primeiros passos e eu ainda não falara sobre isto com ninguém. Pensei então que aquele fora apenas um comentário infeliz e isolado da minha amiga e que, no fundo, aquela semana de férias lhe fizera muito bem para compreender como se sente um homossexual numa terra castradoramente heterossexual…

Hoje, que a blogaysférica dá já passos seguros compreendo que o grito que a minha amiga deu no fim daquelas férias, se assemelha em muito ao grito que dão alguns leitores hetero no fim da leitura de blogs como este!...

Em face de tais gritos dou por mim a interrogar-me porque incomodará tanto a temática LGBT? Pois se a blogoesfera é um espaço de liberdade, sem éticas nem deontologias que não aquelas que cada autor queira estabelecer para si próprio, porque razão hão-de alguns bloggers sentir-se incomodados com blogs como este? Sei qual é a resposta: custa sentir-se minoria, não custa?!

Gostava de dizer como o André: “I don’t give a damn”… Mas a verdade é que dou! Não deixo de me sentir surpreendida quando pessoas que tenho como intelectualmente interessantes, como o Alexandre, cujo blog leio diariamente, não conseguem compreender que quando estão colocados na pele do outro (leia-se quando estão a ler um blog com temática diferente da temática convencional que se foi instalando numa certa blogoesfera e, por isso se sentem minoria) reagem exactamente com as mesmas atitudes que criticam em nós, gritando "num tom militante e aguerrido: 'este blog é 100% assumidamente heterossexual'”!



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