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domingo, 23 de novembro de 2003

Vagabundos de nós?! 


Andava há uns dois ou três dias às voltas com um contrato: punha vírgula, tirava vírgula, acrescentava cláusulas, mudava a redacção, mas o conjunto estava longe de satisfazer a minha costela assumida e exacerbadamente perfeccionista. Já desesperada com a falta de inspiração, decidi dar o braço a torcer e ir comprar a mais recorrente cábula dos advogados em início de carreira (e não só!): um Elucidário, repleto de minutas de contratos, procurações e requerimentos, cujas formalidades às vezes tantas dores de cabeça nos dão.
Porque o dinheiro é pouco e o Natal está a chegar, entrei na Fnac com o firme propósito de apenas comprar o dito Elucidário e fugir dali depressa, que os livros despertam em mim o que de mais consumista pode existir num ser humano. Por isso, se vos disser que tropecei no novo livro do Daniel Sampaio, podem acreditar que tropecei mesmo, literalmente, com direito a manobra de equilibrismo e tudo para não cair ali esparramadinha no meio de tão literário chão!... Conseguem imaginar a cena?

O Dr. Daniel Sampaio é, para mim, um autor de referência, desde os tempos de liceu. E isto ao ponto de ter, aqui no meu quarto, uma fotografia em que estamos lado a lado numa conferência que ajudei a organizar, já lá vão sete ou oito anos. Havia saído há pouco tempo o seu livro “Vozes e Ruídos” e, empenhados e dinamizadores como éramos, eu e um grupo de colegas, logo decidimos propor à escola uma conferência em torno da adolescência. Organizámos tudo e, no dia em que cá chegou aquele que é um dos mais famosos psiquiatras deste país (é claro que o Rui Fra(u)de não conta!), uma sala onde cabiam cerca de trezentas pessoas foi pequena demais para acolher quem até cá tinha vindo para o ouvir e com ele debater algumas ideias.
Antes da Conferência tive o privilégio de almoçar com o Dr. Daniel Sampaio e de perceber que, para além de um incontornável nome da psiquiatria e de um bom escritor, ao meu lado estava também um homem extremamente humano: suficientemente humilde para compreender que não possuía verdades absolutas, mas simultaneamente uma pessoa tão atenta, ambiciosa e interessada que não desistia de tentar, com os conhecimentos que a sua experiência profissional lhe ia oferecendo, contribuir para que a barreira que sempre se constrói entre adolescentes e adultos fosse o menos problemática e conflituosa possível.

Agora que penso nisso lembro-me como foram esses os dias em que estive mais próxima da minha mãe. Ofereci-lhe os livros todos do Daniel Sampaio e sorvemo-los de uma assentada. As duas ao mesmo tempo. E comentávamo-los, criticávamo-los, admirávamo-los… Razões profissionais levaram-nos a organizar várias iniciativas em conjunto e ainda me lembro de lhe ver o orgulho a bailar nos olhos quando, entre requerimentos para isto e reuniões para aquilo, alguém referia que eu era sua filha. Bons tempos…
Penso que foi pouco tempo depois que passei da fase “Lésbica? Estou mas é parva!” para a consciencialização de que era efectivamente lésbica… como era efectivamente branca… e tinha os olhos efectivamente castanhos ponto final. Como sabem, nunca o disse à minha mãe… Nem sei se preciso de lho dizer para que ela o descubra… Acredito que não… Acredito que sabe!... Mas talvez por isso, talvez porque nunca encontre as palavras, o momento e as atitudes certas para lho dizer, desde essa altura trago comigo a ideia de que tudo seria mais fácil se o Daniel Sampaio escrevesse um livro sobre homossexualidade, para que, juntas, pudéssemos comentá-lo, criticá-lo, admirá-lo… e reencontrarmo-nos!

E eis senão quando dou assim de caras com o livro por mim tão ansiado! Escusado será dizer que nem pensei que oito euros já dava para comprar um presentito de Natal… ou que oito euros são muitos minutos de conversa telefónica com a minha querida Mente Assumida… Escusado será dizer que peguei no livro, comprei-o, voei até casa (abençoado carrinho que chega aos duzentos sem se queixar muito!), disse olá à família, engoli o jantar, inventei uma indisposição qualquer e deitei-me a ler… Três horas depois tinha acabado de ler “Vagabundos de Nós”…

Não sei se já vos aconteceu admirarem alguém ao ponto de acreditarem que tudo o que aquela pessoa disser e fizer estará bem dito e bem feito, que tudo o que tiver o seu nome envolvido não terá nada que se lhe aponte e que, se preciso fosse, assinariam o seu trabalho de cruz sem sequer o ler… E não sei se já vos aconteceu depois descobrirem que essa pessoa também é humana, também erra e falha e que assinar de cruz é um risco que não podemos correr! Pois bem, senti isso há poucas horas atrás quando acabei de ler este livro!

O livro começa logo mal: o funeral de Diogo, o filho homossexual! Primeiro pensamento: “Daniel (peço desculpa, mas é impossível não tratarmos com esta proximidade as pessoas que admiramos quando imaginamos diálogos com elas!), matar o miúdo que é gay não será demasiado recorrente e, pior ainda, demasiado fácil?
Bem, era só o princípio, escrito por quem havia sido escrito o livro tinha que ser interessante! Avancei mais umas páginas. Luísa, a mãe de Diogo, recorda o seu filho agora perdido, os dias de gravidez, a infância do rapaz, a forma como, pouco a pouco, se foi apercebendo que o seu filho era diferente… e a forma como isso se foi transformando num drama avassalador.
Já o filho, também em discurso directo, vai relatando os seus medos e as suas angústias do longo caminho que percorre desde a constatação de que era diferente até à inserção na comunidade gay.
Avançava as páginas uma a uma. Compreendia o drama daquela mãe… Reconheço que me revi em muitos dos medos de Diogo… Mas ansiava, ao volver das páginas encontrar o momento em que Daniel Sampaio, como sempre fizera nos seus livros anteriores, apresentasse o lado positivo das situações, suscitasse, com as suas palavras uma reflexão sensata e desdramatizante … Corri as páginas… e não encontrei esse momento.
Luísa vivia frustrada com o marido, mal se refere ao segundo filho, apenas pensa em Diogo. Diogo é o seu filho super-protegido, aquele no qual projectou todos os seus sonhos… Como todos os pais o fazem (consciente ou inconscientemente)… Diogo não corresponde a esse arquétipo idealizado por Luísa (porque nunca, nenhum filho, por muito heterossexual que seja, corresponde)… E não corresponde única e simplesmente porque é gay!
Diogo é um filho atento à mãe, delicado e carinhoso, é também um bom aluno, estudioso e trabalhador… Seria um filho perfeito… Seria provavelmente o filho que mais atenção dava a Luísa, a pessoa que mais carinhosa era com ela… uma das poucas coisas que corria bem na sua vida familiar… E no entanto, todo o livro é construído como sendo Diogo o centro de todos os problemas e dramas desta mãe.
Nunca, neste livro se vê a mãe aceitar a homossexualidade do filho sem preconceitos e tabus… Sempre, até ao dia da sua morte… até no dia da sua morte, a homossexualidade de Diogo é um drama incontornável para Luísa!

Este livro é um bom livro, sem dúvida, se nele se quiserem retratar os medos e anseios que perpassam uma mãe que descobre que tem um filho homossexual… Porque, tal como a nós homossexuais, nos custou reconhecermo-nos e admitirmo-nos perante nós mesmos como tal (e quem disser que foi fácil não pode estar a ser verdadeiro!)… admito que, aos nossos pais, custará também lidar com essa realidade, aperceberem-se que os seus filhos são diferentes e que nunca trarão para jantar uma nora (se de homens estivermos a falar, claro está!), mas um genro! Admito que, numa primeira fase será difícil assimilar essa diferença, tentar descobrir o que dizer aos amigos, ficar a pensar o que dirão os outros!... Mas falta a este livro o salto!
Falta o salto para a fase seguinte, a fase da aceitação. A fase em que os pais compreendem que os filhos além de serem homossexuais são um outro conjunto maravilhoso de coisas. Falta, em “Vagabundos de Nós” o salto para além dos medos e dos dramas, o salto para o convívio diário com a homossexualidade, sem tabus ou falsas aceitações (que é o mesmo que dizer sem homofobias veladas!).

Diogo morre num desastre de automóvel. Porque é fácil matar a causa do drama, porque é mais confortável conviver com a homossexualidade quando ela é apenas uma memória… E eu pergunto-me: o que teria acontecido a Diogo e a sua mãe se este rapaz, que vivia agora uma relação estável, que estava integrado numa associação lgbt (como o dão a entender os panfletos sobre o “orgulho gay” que costumava oferecer à mãe), que acabava o seu curso de Sociologia, não tivesse sido morto assim pelo autor?
Continuaria a sua mãe a recordar o seu crescimento e a ver a homossexualidade do seu filho como o grande drama da sua vida, um segredo a guardar religiosamente de todos? Ou compreenderia ela, de uma vez por todas, que essa homossexualidade era só e apenas mais uma característica da pessoa fantástica que era o seu filho?....

Pois, bem sei qual queriam que fosse a resposta! Também a procurei… mas não está lá… No livro só está o drama, nada mais!
Não sei se Daniel Sampaio teve algum objectivo ao escrever este livro. Se o objectivo foi retratar aquilo por que passam os adolescentes homossexuais, então o livro poderá até ter alguma ponta de realismo… mas alguma, apenas, uma vez que, pelo que me tem sido dado observar, nesta coisa do “coming out” cada caso é um caso e não há grande espaço para generalizações.
Já se o objectivo foi ajudar pais e filhos no caminho a percorrer até à convivência harmoniosa com a homossexualidade, então o objectivo foi totalmente frustrado! Eu, por mim falo… Se acaso pensei até oferecer este livro à minha mãe, antes de o ler, agora que o li tal hipótese está totalmente posta de parte: se a mulher já tem tendência para dramatizar tudo o que passa dos parâmetros convencionais, só iria encontrar neste livro fortes argumentos para sentir, ainda mais, a homossexualidade como um drama, um mal que se lhe abateu sobre a cabeça e a vida!
Por fim, mesmo como mero exercício literário o livro não convence… pelo menos não a mim, que nunca gostei de dramas gratuitos e amargurados!

Ai, ai, ai… E ainda não foi desta que me curei desta falta de capacidade de síntese que me acompanha desde sempre... Peço desculpa a quem me lê, mas tinha mesmo que partilhar convosco a desilusão que foi este livro… Sinto hoje que perdi uma referência de sempre e, nesse sentido, hoje sim, sou um pouco vagabunda de mim!

A minha última esperança é que a publicação deste livro seja acompanhada de Conferências como aquela que há muitos anos atrás organizei e que delas transpareça, com rigor e sem medos, que na homossexualidade pode existir felicidade e realização para além do drama e das tempestades da primeira fase… que os homossexuais um dia também se encontram e deixam de ser vagabundos de si mesmos!

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