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domingo, 14 de setembro de 2003

O abraço! 


... E finalmente abraçaram-se!

Aquele abraço era do tamanho da saudade alimentada durante os longos dias de distância a que as suas vidas duplas obrigavam. Iam nele palavras que jamais poderiam pronunciar, simplesmente porque verbalizar tudo aquilo que sentiam naquele momento seria espartilhar emoções só por elas entendidas... Por elas tão bem entendidas!... Um abraço que era o encontro dos corpos de uma alma una!

As suas vidas, as verdadeiras, ou melhor, aquelas que a maioria das pessoas tinha como suas, ficaram para trás desse abraço. O mundo parou ali e, por momentos, tudo o que existia eram só elas e aquela sensação inexplicável de felicidade.

Durante aqueles breves instantes falaram como só os verdadeiros amantes podem falar: por meias palavras e entre muitos sorrisos de cumplicidade; trocaram ideias, falaram de si, das suas vidas, dos seus medos, das suas esperanças, do seu futuro... e discutiram o mundo em geral... Como sempre não estavam de acordo... mas, como sempre também, continuavam a admirar-se... também intelectualmente... Gostavam de desafiar-se mutuamente e, apesar de terem sempre perspectivas diferentes não deixavam de se interessar pelo que diziam, nem que fosse para refutá-lo logo de seguida... e cada novo argumento esgrimido fazia aumentar o respeito, o carinho e o amor que alimentavam uma pela outra.

Discutiam como ninguém... E nas próprias discussões (meramente políticas, culturais ou filosóficas!) se fazia sentir a harmonia que emanava daquela relação... Quem as conhecia... as poucas pessoas que as conheciam enquanto casal, sabiam que elas só podiam mesmo ter nascido uma para a outra... Era impossível haver mais sintonia entre duas pessoas... era impossível mais Amor!

Mas os instantes acabavam depressa... Sempre depressa demais... Mal tinham matado as saudades que haviam acumulado, a partida anunciava-se de novo... De novo um abraço... Este ainda mais apertado como se, através dele, pudessem fundir também os seus corpos num só... De novo as palavras por dizer, adivinhadas no brilho de um olhar que não sabiam quando voltaria a cruzar-se...

Abriu a porta. Um derradeiro aceno, agora já em tom de amizade, que a vida, a verdadeira, não contempla outros afectos!

Regressa a casa... a sua... supostamente. Abre a porta, como sempre. Cumprimenta a sua família de sempre, com o sorriso de sempre; como se a vida tivesse sido sempre só aquilo, aquele regressar a casa, aquele cumprimentar apático e sem emoção...
Não se revê naquelas paredes, nem naquela família, não se revê sequer naquela vida... E no entanto, é a ela que tem que viver, pelo menos enquanto os salários não aumentam e os preconceitos não diminuem....

Por vezes, no fim destes "dias-oásis" em que prova o sabor da felicidade, tenta procurar uma explicação para esta necessidade de uma vida dupla, tem ganas de gritar ao mundo o que a une ao seu amor e explicar que é com ela, só pode ser com ela, que deseja viver cada instante da sua vida...
Mas logo a sensatez lhe faz recordar que o tempo ainda não é o propício para assumidamente ser quem realmente é... E compreende que terá que continuar a encarnar o personagem que criou para se dar pelo seu nome na vida dita "real"...
A sua vida prosseguirá dentro de momentos... daqui a um número incerto de dias quando puder celebrar de novo o seu amor dentro das quatro paredes em que o mundo é tolerante!


... Como é bem mais fácil falar de sentimentos na terceira pessoa!...


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