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segunda-feira, 8 de setembro de 2003

"Mulheres Apaixonadas" - Assumidamente expectante! 


Já aqui o disse: nunca compreendi os fenómenos de massas! É o futebol... são as romarias estivais até ao Algarve... e são as telenovelas!
Nunca percebi o fenómeno "telenovela". É uma incompreensão que me vem da infância, de quando a minha avó passava tardes inteiras (todavia com o indispensável intervalo para o lanche bem abastado aos seus netinhos, que a minha avozita nunca deixou os nossos estômagos em mãos alheias!) em frente ao ecrã, fiel à sua maratona interminável de novelas. A capacidade que aquela mulher tinha (e ainda tem, graças a Deus!) de se comover com cada um dos personagens, de se entusiasmar com os enredos, ao ponto de fazer com que as novelas saíssem do televisor para se tornarem conversa de jantar, como se o Sinhôzinho Malta ou a Tieta fossem da família e tivéssemos que zelar pelo seu bem-estar... Até que a novela acabava e novos "familiares" vinham substituir os já antigos, de quem nunca mais se ouvia falar.

Perguntava-me, nessa altura, se não seria mais interessante se cada um de nós falasse sobre a nossa vida em vez de discutirmos tão calorosamente a vida daqueles personagens fictícios... Mas, há medida que o tempo foi passando compreendi que o Sinhôzinho Malta, a Tieta e toda a sua escol, não eram só da minha família, mas de uma quantidade inumerável de famílias, que comungavam entre si o facto de interromperem as suas vidas às 21h em ponto, logo a seguir ao telejornal, para conhecer mais um desenvolvimento na vida daqueles que lhes eram tão queridos, para verem os galãs apaixonarem-se e o vilãos serem espezinhados... e, obviamente, para estar por dentro das conversas na manhã seguinte por todo o lado!

Cresci assim, também em relação às telenovelas, com aquela (desagradável) sensação de que fazia parte de uma estranha minoria que estava mais preocupada com a vida real, com os amigos de verdade, aqueles de carne e osso cujo ombro não é quadrado, e a face não é de vidro, do que com os não-sei-quantos da novela das 21, das 19, das 15, das... perdoem-me se acaso me falha alguma!

Foi por isso que quando, ao fim de um dia estafante, ontem à noite consegui uns minutos para me estender no sofá em frente à televisão, o fiz mais confiante no sofá do que na televisão, sem qualquer esperanças de ser surpreendida pela tal "caixinha". Eis senão quando a "caixa" se revelou ser de surpresas: no ecrã um casal de lésbicas comentava o facto de um rapaz assediar continuamente uma delas, numa tentativa sempre frustrada de a "converter"; a cena terminou num voto de confiança mútuo e num abraço, mais do que apaixonado, romântico... e desceu o pano, que é como quem diz, foi intervalo.
Gostei do que vi e fiquei para ver mais. Na segunda parte de "Mulheres Apaixonadas", Clara [Aline Moraes] já não estava com Rafaela [Paula Picarelli] (do que não vale ter ao lado uma irmã que herdou os gostos telenovelísticas da avó para ficar bem informada!), mas em casa, com uma mãe (não tão boa actriz como as outras duas, mas isso não é o que está aqui em causa!) incapaz de admitir o lesbianismo da filha e decidida a fazer tudo para impedi-lo ou, pelo menos, negando-o perante os outros, chegando mesmo a dizer às amigas que a filha namora com um rapaz... Obviamente a cena deu em discussão e em bater de portas.

É claro que já tinha ouvido falar de "Mulheres Apaixonadas" (é verdade que normalmente não gosto de novelas, mas não vivo fora do mundo e gosto de saber o que se passa à minha volta!), sabia que entre várias questões da actualidade, como a violência doméstica, o ciúme ou o adultério, abordava também a questão da homossexualidade, cheguei até a assistir aos primeiros episódios a ver que rumo tomava tal abordagem, mas os afazeres do dia-a-dia e uma sensação de que o tal casal aparecia muito pouco frequentemente, acabaram por me afastar da novela... Até ontem!

Fiquei agradavelmente surpreendida com aquilo a que assisti: penso que foi a primeira vez que vi, em horário nobre, o homossexualismo ser retratado tão bem, de forma tão natural, tão correcta e tão próxima da realidade... Pelo menos, eu revi-me naquelas palavras e naquelas angústias!... E melhor que isso, tudo isto inserido num programa que concorre nas grelhas de audiência com os primeiros lugares! Não crêem, minhas amigas, que isto vale mais que mil "Prides"?

Sei que se tem discutido no Brasil se as personagens devem ou não beijar-se, considerando a maioria da opinião pública que tal não deve acontecer, a mesma maioria que até aceitaria que o casal acabasse junto!!! Mas o mais importante não é saber se elas se beijam ou não, o importante é que neste momento milhões de portugueses (a minha avozinha incluída) têm como companhia diária um casal de lésbicas igual a tantas outras, com os problemas e angústias de todas nós... E eu já estou à espera que elas nos apareçam para jantar um dia destes!... Quem sabe se tal acontecer, terminada que seja a novela, possamos, eu e a Mente Assumida, assumidamente assumir o papel da Clara e da Rafaela e tomar os lugares que a família lhes tinha reservado!

Entretanto, vão passando a palavra a amigos e conhecidos: vejam "Mulheres Apaixonadas", afinal sempre é uma boa alternativa à pornografia gratuita que a TVI nos oferece em várias doses diárias desde o princípio de mês! Eu fiquei assumidamente espectadora e estou assumidamente expectante para saber o desenrolar dos próximos episódios!

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