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terça-feira, 30 de setembro de 2003

Conceito hospitalar de "família" 


"Planeáramos jantar cedo, num restaurante da praia, com vista directa para o mar. Mudámos de intenções devido a um mal estar que a Clara começara a sentir. Uma ardência no estômago, uma sensação desconfortável. Abandonámos a praia, ela insatisfeita, eu preocupada. O sol brilhava com a intensidade certa, por detrás de uma nuvem, num fim de tarde aprazível. Mas a sensatez obrigava-nos a regressar a casa, para que a Clara pudesse descansar. Ao entrar para o carro, a primeira tontura, que se repetiu, embora com menos intensidade, no elevador e enquanto tomava um duche.
Pedi-lhe que se sentasse na cama, enquanto lhe enxugava o corpo e secava os cabelos. Antes de a vestir, verifiquei a temperatura. Trinta e oito graus. Obriguei-a a deitar-se. Muito contrariada, acedeu, repetindo de cinco em cinco minuto que estava bem, que não era nada. Tinha frio. Cobri-a com o edredão, mas continuava a tiritar. Trinta minutos depois, trinta e nove graus. Talvez fosse melhor ir ao hospital, pensei.
Pediu-me que ligasse ao Pedro, médico, amigo de longa data. As palavras dele tiveram maior impacto. Conseguiu convencê-la que o melhor era ir ao hospital, porque com base apenas nos sintomas não conseguia arriscar nenhum prognóstico. Vesti-lhe um pólo azul, uns jeans, uns ténis, a camisola vermelha que desenterrei de uma gaveta.
À chegada ao hospital, nova tontura. Ainda teve tempo de dizer que lhe apetecia vomitar. Desmaiou enquanto, desesperada, eu respondia às perguntas da administrativa, na recepção. Dois enfermeiros acorreram de imediato, levaram-na para dentro. Tentei acompanhá-la, mas à pergunta:
- A senhora quem é?
gaguejei:
- Uma amiga, ela veio comigo.
e a honestidade valeu-me isto como resposta:
- Não pode entrar. Só a família. Não se preocupe que ela fica já bem.
Barrada a minha entrada, restou-me pedir informações, sempre que tinha oportunidade. Ao fim de três horas, alguém veio dizer-me que a Clara ficaria internada, para observações. Aparentemente, tratava-se de uma intoxicação alimentar. O desmaio devera-se a uma descida de tensão arterial.
Três horas depois. Três horas que me pareceram uma eternidade, um sufoco. Telefonei pelo menos quatro vezes ao Pedro que, sempre gentil, procurava tranquilizar-me.
- Posso vê-la?, perguntei.
- É da família?
- Não, sou uma amiga.
- Pois… só a família é que pode entrar. Ela está em observações. A senhora avisa-os ou avisamos nós?
Fiquei transtornada, mas ainda consegui dizer numa voz sumida que eu os avisava. Depois do telefonema, abandonei o hospital, sem ver a Clara, sem saber se precisava de alguma coisa, sem ouvir a sua voz, sem ver os seus olhos, sem lhe tocar, senti-la perto, ao menos, para que se sentisse – me sentisse – menos só. Não sei o que pensei enquanto regressava a casa, mas lembro-me de ter esmurrado várias vezes o volante do carro, numa sensação de impotência que me enchia os olhos de lágrimas e a cabeça de pensamentos de revolta. A verdade é esta e só esta: aparentemente, não pude ver a Clara porque não sou da família dela. Mas, não sei porquê, tenho a certeza que se, em vez de um casal de lésbicas, estivesse em causa um casal de heterossexuais, os enfermeiros teriam permitido que a visse.
Nos hospitais só existe um conceito de família, e esse conceito não comporta desvios. Familiares são apenas os pais, as mães, os avós, os irmãos, os tios… E os namorados, desde que heterossexuais. O conceito hospitalar de família é cego aos afectos, porque vive exclusivamente de uma partilha de apelidos, despido de sentimentos, de proximidades. Os pacientes não podem ter ao pé de si quem mais desejam, mas apenas quem os fazedores de regras impõem, baseados nos critérios que bem entendem, sejam eles tão ridículos e absurdos como o facto de pertencer à mesma família. Por muitas voltas que dê à cabeça, não consigo perceber porquê. Talvez porque só queira esquecer a aflição, o desespero, a raiva, o desalento e a preocupação que vivi naquelas horas, mas que não me deixam sempre que as revivo, ainda que só na minha cabeça. Será que os tais fazedores de leis já pararam para pensar nisto? E você?"

Esta história é ficção neste post, mas é real todos os dias na vida de milhares de pessoas.

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