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sábado, 23 de agosto de 2003

Assumidamente estrangeira! 


Há quanto tempo não lia um livro assim, de uma assentada! Ou porque o cansaço dos dias não mo permitisse, ou porque as histórias já não me surpreendessem, ou porque os autores se perdessem em trezentas páginas de descrições de sí­tios e personagens, num enredar de palavras muito pouco literário e cativante, num apelo à boa vontade, que já não tenho... ou seja lá por que motivo fosse, há já muito tempo que os meus hábitos de leitura se resumiam à passagem dos olhos por duas ou três páginas de um livro que acabava sempre por deixar de lado, trocado por outro, na esperança de que, esse sim, contivesse a história que me apetecia ler.

Mas com este livro foi diferente! Logo na primeira página Camus mata a mãe de Meursault, "O Estrangeiro". Ninguém fica indiferente a uma morte, não é verdade? Ou melhor ainda, ninguém fica indiferente à morte de uma mãe. Eu, pelo menos, não fiquei e deixei-me guiar pelas linhas deste "Estrangeiro" . Vi-o assistir à morte da mãe, entregue a um lar há já alguns anos, como quem assiste a um drama no cinema: de fora, sem uma lágrima, sem uma única manifestação exterior de qualquer sentimento... porque o Sol estava forte e ele era muito sensível ao calor.
Voltei com ele para casa e vi-o descansar. Assisti ao seu despertar na manhã seguinte, à forma como conheceu Maria e se envolveu com ela. Deixei que me apresentasse os seus vizinhos Raimundo e Salamano, e me contasse as suas histórias... E fui com ele página a página até ao dia em que, a convite de Raimundo, foi passear para uma praia, acabando por matar inadvertidamente um rival do vizinho, apenas porque as pancadas do Sol na testa lhe tolhiam os sentidos e o calor o obrigou a crispar a mão que segurava um revólver que não era seu, de tal modo que o gatilho cedeu. Depois do primeiro tiro disparou mais quatro "e era como se batesse quatro breves pancadas à porta da desgraça".... E que desgraça!
A partir de então as páginas seguiram-se sem parar. De um só fôlego assisti ao seu processo, às perguntas do juiz de instrução, às perguntas do advogado, às perguntas e curiosidade de todos. Aprendi com ele a ocupar os dias da prisão. Acompanhei-o no dia do julgamento, observei com ele as testemunhas, inquiridas sempre mais sobre a forma como se comportara no funeral da mãe do que sobre o crime em si... E finalmente, ouvi a sentença final: pena de morte, "em nome do povo francês!".
E poucas páginas depois acabaram-se as páginas, acabou-se Meursault... Mas algo ficou a roer em mim! E eis como um livro lido em pouco mais de uma hora consegue mexer com uma pessoa!... São assim as obras-primas!

Primeiro pensamento, imediato: também há poucos dias, "em nome de nem sei bem o quê" mataram um "Estrangeiro"... e fica o sentido minuto de silêncio deste blog à memória de Sérgio Vieira de Mello...
.....................

Segundo pensamento: como é possí­vel condenar alguém à pena de morte?
Não quero que me interpretem mal, "O Estrangeiro", de Albert Camus, é muito mais do que apenas mais um livro sobre a pena de morte, é (se é que classificar os livros não seja já reduzi-los e relativizá-los!) uma interessante viagem à psiche de alguém que, bem ao estilo da corrente existencialista, vive os seus dias um a um, sem grandes filosofias, sem grandes questões, apenas com verdade... e poucas palavras. O livro é fascinante também, ou melhor, sobretudo, por isso.
Mas em mim este livro despertou algo mais. Despertou o fogo (agora em estado de latência) que um dia me levou a ser activista da Amnistia Internacional. Sim, porque quando me falam em decapitações, ou injecções letais, ou seja qual for o método através do qual seres humanos comuns e mortais se armam em Deuses e, em nome da lei, ditam a destruição de vidas, não consigo deixar de sentir um fogo de revolta dentro de mim.

Sei que, infelizmente, existem pessoas que não concordarão comigo. Não esquecerei nunca aquela senhora que, interpelada por mim, num dia de campanha, me disse: "Vocês aqui são todos contra a pena de morte porque nunca viram, como eu, que vivo nos Estados Unidos, pessoas morrerem à vossa porta! Vocês são contra a pena de morte porque não sabem o que é a violência!"
Este é, aliás, um argumento utilizado por aqueles que mantêm a pena de morte no seu catálogo de penas a servir conforme o juiz esteja mais ou menos bem disposto, ou os jurados sejam mais ou menos intransigentes!
É preciso castigar os criminosos, sem dúvida! É preciso reprimir a violência, concordo! Mas que moral, para combater seja o que quer que for, tem um Estado que diz aos seus criminosos "não mates... senão nós matamos-te a ti... E ainda que mates porque outros mataram os teus, ai de ti se matas... porque senão nós matar-te-emos, porque mataste os nossos!"... Percebem a lógica? Percebem como podem dormir os juizes ou jurados depois de sentenciarem um "corte de pescoço" sem certezas absolutas sobre a possibilidade da ressocialização do condenado? Percebem porque morrem, em vários países, pessoas condenadas por actos (como a homossexualidade) que noutros locais do mundo nem sequer são considerados crime? Conseguem perceber tudo isto? Pois... nem eu!
Bem, mas discutir a pena de morte seria pano que daria para várias mangas... e a linha (de tempo meu e de paciência vossa) não estica.

O que aqui pretendo partilhar convosco é que, animada por estas questões decidi ir dar um salto ao site da AI, para ver o que por lá se andava a fazer. E eis que me deparo com os seguintes factos descritos no último relatório:

"(...) more than 80 countries forbid homosexuality; in some countries it even carries the death penalty. Not to mention the fact that the infliction of torture, discrimination of sexual minorities and impunity of perpetrators are commonplace in many more. (...)
In Saudi Arabia at least 44 people were convicted of homosexuality in 2002, including 20 foreigners, and three men were executed. Very little is known about the trials themselves.(...)
In Egypt (..) Several men were arrested and sentenced after they had arranged dates through the internet. Their dates turned out to be security officers or police informants. An example of this was Zaki Sayid Zaki Abd al-Malak. In January he was sentenced to three years 'imprisonment because of his `repeated indecent beha-viour'. A court of appeal confirmed the sentence in March. Amnesty received reports that he was being ill-treated and campaigned on his behalf."


Enfim... andamos nós preocupad@s com as uniões de facto, quando algures no mundo, ainda existem pessoas que, por se sentirem atraí­das pelo sexo errado correm o risco de acabar sem alguém ao seu lado e/ou (conforme os casos)... sem cabeça!

Ele há coisas nos seres humanos que me fazem sentir assumidamente estrangeira!


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