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quarta-feira, 20 de junho de 2007

«Modas» vs. «Princípios» (a propósito da eutanásia) 

Quando andava na Faculdade, era frequente comentar com uma amiga o quanto me irritava o hábito que, em tertúlias de amena cavaqueira em casa, um outro colega nosso - pessoa de excelente e reconhecida craveira intelectual - tinha de começar quase todas as suas frases com as expressões «Em Portugal...» ou «Os portugueses...». Irritava-me, sobretudo, ver alguém inteligente cair na melosa tentação da generalização, ignorando grosseiramente que entre os portugueses, tal como em todos os universos, grandes ou pequenos, há pelo menos uma excepção àquilo que parece ser a regra. Um dia, disse-lho frontalmente, e ainda bem. Não que ele tenha mudado de hábitos - não, continuou a usar a mesma expressão, eu é que deixei de o ouvir - mas, ao menos, tive o gozo de lhe dizer que até poderia pensar de modo diferente de muitos outros, mas no que tocava à verbalização do raciocínio, usava os mesmos termos que quase todos os outros. Posto isso, leia-se a frase que vou ler adiante com especiais cautelas, não vão ficar a pensar que eu sou como Frei Tomás.
Com as devidas ressalvas, «os portugueses» (ora, cá está ata expressãozinha) parecem estar a embarcar numa moda perigosa no que concerne às questões relacionadas com a ética e o Direito. Com efeito, de cada vez que começa a debater-se uma questão deste foro, a tendência imediata é para apresentar soluções de ultima ratio, ou seja, soluções, chamemos-lhe assim, definitivas, cortando o mal pela raiz. São muitos os exemplos de opiniões neste sentido sobre outros assuntos. Certamente ninguém ignora certas vozes de burro que p'raí andam a clamar pela reposição da pena de morte, ou pelo agravamento da moldura penal para certos tipos de crime, ou pelo direito à realização da justiça pelas próprias mãos. Há até quem chegue aos limites da senilidade, dizendo sentir saudades do tempo de um cavalheiro de seu nome António Salazar.
Os dois exemplos temporalmente mais próximos desta nova «moda» a que assistimos foram a liberalização do aborto e o início da discussão em torno da legalização da eutanásia.
Segundo o que foi anunciado ontem (clique para ler a notícia da TSF), num estudo realizado por um médico no âmbito da sua dissertação de mestrado na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, em que foram inquiridos 500 médicos oncologistas, apenas foram obtidas 200 respostas e, desses 200 que responderam, 39% revelou-se a favor da legalização da eutanásia. Contudo, apenas 20% desses oncologistas afirmou estar disposto a realizá-la.
E é neste aspecto que se vê como a «moda» está a pegar. Na questão do aborto, a maioria da opinião pública, volvidos alguns anos de debate, acabou por enveredar pela solução mais drástica e, contudo, menos ética, a da legalização da prática abortiva. Alguns ainda gastaram as gargantas tentando argumentar com soluções intermédias, como a educação sexual, o apoio às mães solitárias, o controle da natalidade ou a aceleração do processo de adopção. Em vão. Melhor do que tentar evitar uma gravidez indesejada, a maioria dos votantes no referendo de Fevereiro passado entendeu ser a possibilidade de pôr termo a essa mesma gravidez indesejada. Uma decisão de ultima ratio, claro está, que não deixa alternativa para mais nada, que «mata o bicho para acabar com a peçonha».
Em relação à eutanásia, começamos todos a perceber que é muito provável que venha a acontecer a mesma coisa. Embora o estudo em causa não seja esclarecedor, nem sequer no que toca a números, uma vez que não sabemos que pergunta foi feita nem sequer o que é que os inquiridos entendem por eutanásia (há múltiplos conceitos de eutanásia), é, pelo menos, preocupante.
Eu compreendo que um médico oncologista tenha um conhecimento de causa muito superior ao do comum mortal, no que respeita ao sofrimento de um doente terminal e, por isso, que pondere a possibilidade da eutanásia. O que a mim já me custa a compreender é que um médico oncologista, em vez de avançar com a defesa eutanásia, não defenda o maior investimento na ciência para a descoberta da cura, um maior investimnto das farmacêuticas no aperfeiçoamento dos medicamentos, a incrementação e a melhoria dos cuidados paliativos. E também me custa a compreender que alguém defenda a legalização de uma determinada prática e que venha logo a seguir dizer que não a levaria a cabo. Se, no entender dos 39% daqueles 200 médicos oncologistas, a eutanásia deveria ser legalizada, é porque a vêem como algo de aceitável. Mas então, para metade deles, só é aceitável se for feita não por si, mas por outro colega de profissão?!
Desculpar-me-ão a viciação do pensamento, mas é uma questão que me é cara: isto faz-me lembrar aquela gentinha triste que diz que não tem nada contra os homossexuais, desde que eles não tentem engatá-los; ou que não tem nada contra os homossexuais desde que as filhas, os filhos, as sobrinhas, os sobrinhos, as tias e os tios, as irmãs e os irmãos e as mães e os pais deles não sejam homossexuais; ou que não tem nada contra os homossexuais desde que eles façam lá o quiserem na cama, mas não peçam para serem aceites e respeitados; ou que não tem nada contra os homossexuais desde que eles não queriam ser iguais aos heterossexuais no que toca aos direitos fundamentais da pessoa humana, como é o caso do direito ao casamento.
No fundo, isto faz-me lembrar toda aquela gentinha triste que defende uma coisa, mas que não tem coragem para levar a sua defesa até ao fim. Faz-me lembrar aquela gentinha triste que atira a pedra e esconde a mão. Faz-me lembrar aquela gentinha triste que acha que uns nasceram para a nobreza e outros para o povo, que uns nasceram para casar e outros para viverem amasiados, que uns nasceram para a medicina, outros para a eutanásia. Faz-me lembrar, em suma, aquela gentinha que vai em «modas», que gosta de importar ideias do «exterior», que invoca mais depressa um gráfico com resultados na Holanda do que uma cartilha de Direitos Fundamentais do seu próprio país.
Por princípio, sou contra este tipo de postura: faz-me urticária. E, em consequência, tenho uma certa dificuldade em compreender o que dizem alguns dos meus compatriotas, alguns portugueses, demasiados portugueses sobre estas questões da ética e do Direito. Gosto de gente que reflecte no que diz, gosto de gente que acredita naquilo que são os seus valores, gosto de gente que quando toma uma posição o faz com a coragem necessária para a defender. Não gosto, por isso, de gente que vai facilmente em «modas». No fundo, no que toca a princípios, I'm just a good old fashioned (also lover) girl.

E para a grafonola vai mesmo esta: Good Old Fashioned Lover Boy, dos Queen, uma das minhas preferidas.

NOTA: Este texto não é uma declaração contra a eutanásia, nem sequer é um texto onde eu expresse a minha posição acerca do tema. É apenas um texto pró-princípios, porque a "minha luta", em relação à eutanásia e tudo o resto, é a dignidade humana, o amor e o respeito pelo outro.

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