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sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

«A gente somos civilizados.» 

As portuguesas e os portugueses (reminiscências dos discursos de Jorge Sampaio...) estão a mudar os seus hábitos. Não se pense, contudo, que estamos a ficar mais europeus, seja lá o que «ser europeu» signifique. Estamos é a ficar mais normalizados, mais normativizados, em suma, mais iguais a toda a gente. Contingências da globalização. E até há quem diga que é bom, imagine-se.
As lojas de comércio tradicional estão na mesma, às moscas. Agora a malta quer é comprar nas «grandes superfícies». Sim, que nós por cá também temos coisas grandes, nem que sejam as superfícies. Discos e livros é na Fnac (eu própria já deixei de comprar na Bertrand, que não faz os 10% de desconto sobre o preço do editor que a Fnac faz), electrodomésticos é onde o crédito for mais vantajoso (ah pois, que as portuguesas e os portugueses continuam a crer que há créditos vantajosos), o cinema é no shopping e ao domingo é dia de tirar o carro da garagem para ir dar «o passeio dos tristes».
As compras de Natal, contudo, começam a ser feitas mais cedo. As portuguesas e os portugueses não querem que lhes chamem «atrasados». Além disso, agora os portugueses podem. «Nós queremos, nós compramos - pagar, logo se vê». Todo e qualquer badameco tem cartão de crédito, embora o plafond não ultrapasse os €600,00. Não há quem não tenha um crédito e não tenha o rectângulozinho de plástico dentro da carteira (geralmente, também ela de plástico). Qualquer dia, «chique» é ter só cartão de débito.
Do apartamento (agora não se diz «casa», diz-se «apartamento») ao shopping (dizer «centro-comercial» é old fashion) é um pulo e lá está tudo o que um ser-humano precisa. Aproveita-se e vê-se a bola, à borliu, no ecrã gigante, enquanto a criancinha se entretém com o brinquedo da MacDonalds.
Desde o início de Dezembro que os shoppings estão a abarrotar de gente. E a avalanche de gente até nem começou muito cedo, porque já desde Outubro as iluminações de Natal pirosas imperam em tudo quanto é janela. Às luzinhas pisca-pisca eu prefiro (para criticar, obviamente) os Pais-Natais pendurados das varandas. O Pai-Natal do século XXI já não entra pela chaminé (que é que ainda tem fogão-de-sala em casa?!), mas pela varanda do T1. As renas foram desaparecendo, porque o Pai-Natal já não precisa delas. Agora não vem da Lapónia, vem da China e é feito nas mesmas fábricas onde se fazem as bandeiras que têm escrito a amarelo a palavra «Portugal». E é «100% viscose».
Esclareço antecipadamente que nada tenho contra os shoppings. Pelo contrário, sou muito entusiasta do conceito e frequentadora mais ou menos assídua de três ou quatro. Porém, como não tenho muita paciência para enchentes (já tive, mas já deixei de ter), tenho evitado ao máximo pôr os pés em semelhantes sítios nesta altura do ano. Contudo, esta semana - malfadada sorte! - não pude escapar e lá fui eu comprar umas coisas de que precisava e outras tantas que não me faziam falta absolutamente nenhuma.
Estava eu na famosa Loja do Gato Preto, entretida a ler as etiquetas dos móveis que supostamente são feitos na China ou no Nepal, quando sou obrigada a ouvir o diálogo de um casal mesmo ao meu lado. A mulher segurava um recipiente em forma de vaca que é usado para guardar os utensílios de cozinha. O marido segurava um em forma de ganso. Dizia-lhe ele que até gostava mais da vaquinha, mas que a F. tinha um que era um ganso. Ela respondeu que o da vaquinha condizia melhor com os azulejos da cozinha (nem quero imaginar como seriam os aulejos daquela cozinha!), mas que se a F. tinha o do ganso, era porque o do ganso era mais bonito. Ele apressou-se a dizer «Pois!» e ela retorquiu «Então, levamos o ganso». Eu lá continuei loja fora a admirar aquelas coisas fantásticas e originais que a Loja do Gato Preto tem, completamente diferentes das da Tribo, da Área e da Pórtico. Chegados à caixa (eu comprei duas velas aromatizadas sem as quais não poderia continuar a viver e por isso tive de gramar com a fila), levo novamente com o casal do ganso à frente. O marido pede então à funcionária que lhe embrulhe o caco. «Achas que a T. vai gostar?», perguntou ela ao marido. «Claro que sim, se a F. tem um igual!».
A minha cabecinha, que até nem é dessas coisas de se pôr a filosofar sobre as insignificâncias que me acontecem no dia-a-dia (não é, pois não?), pôs-se logo a magicar (que coisa estranha!). Aquele casal não comprou um presente por achar que era a melhor oferta que poderia oferecer à amiga, mas sim porque uma outra pessoa tinha um igual. Ora, isto, para uma cabecinha como a minha, levanta algumas questões: será que os presentes de Natal oferecidos assim, sem sentimento algum subjacente à sua escolha, mas seleccionados tão somente porque seriam a escolha de qualquer outra pessoa, terão algum significado? Será que quem os recebe ficará comovido no acto da oferta? Será que daqui a uns anos a T. ainda se lembrará de quem lhe ofereceu o ganso?
A minha cabecinha poderia ficar-se só pela pertinência (ou não, ou não...) das perguntas, mas teima em também encontrar respostas. Aposto que a resposta a estas perguntas é «não», mas isto é só uma desconfiança minha. Presentes standardizados, iguais aos que qualquer pessoa poderia oferecer, iguais aos que se vendem em todas as lojas, iguais aos que toda a gente compra não estabelecem nenhuma diferença, não são marcantes. Esteriotipar os gostos das pessoas, o que observa em tudo, desde a decoração das casas aos objectos pessoais, passando pelas roupas, os acessórios, etc. torna-nos, supostamente, mais conformes, mais adaptados, mais integrados, mais fashion. Vamos na corrente, esquecendo que assim nos transformamos em apenas mais uma gota. A individualidade de cada um está a perder-se, até nas escolhas que fazemos para os presentes de Natal. Oferecemos o que toda a gente oferece, porque nós também somos pessoas de bom gosto, também sabemos o que é que é cool e «fica bem». Por isso vamos todos aos mesmos sítios e compramos todos as mesmas coisas. Em troca, recebemos todos também as mesmas coisas. E depois ficamos todos muito contentes, porque, afinal, por aí se vê que «a gente somos civilizados». E quem tenta fugir à regra ou é parolo ou esquisito, como já me chamaram a mim. Ora bolinhas, sim?

Para dar um colorido sonoro natalício à «posta», pus a Fiona Apple a cantar na grafonola: «Frosty, The Snowman».

Frosty, the Snowman
Was a jolly happy soul
With a corncob pipe and a button nose
And two eyes made out of coal

Frosty, the Snowman
Is a fairytale they say
He was made of snow
But the children know
How he came to life one day

There must have been some magic
In that old silk hat they found
For when they placed it on his head
He began to dance around

Oh, Frosty, the Snowman
Was alive as he could be
And the children say
He could laugh and play
Just the same as you and me

Frosty, the Snowman
Knew the sun was hot that day
So he said «let's run
And we'll have some fun
Now before I melt away»

Down to the village
With a broomstick in his hand
Running here and there
All around the square
Saying «Catch me if you can!»

He led them down the streets of town
Right to the traffic cop
And he only paused a moment when
He heard him holler stop

Frosty, the Snowman
Had to hurry on his way
But he waved goodbye
Saying «don't you cry
I'll be back again some day»

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