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quinta-feira, 21 de setembro de 2006

No meu real imaginário 

Há minutos, ainda há poucos minutos, começou mais um dia (sei que sabes, que saberás sempre que dia é hoje). Estou para aqui, em frente a este monitor, tentando ver para lá da tela, tentando, no meio deste silêncio, ouvir-te desse lado dizer-me simplesmente: «Olá Mente. Boa noite. Dorme bem.». Será que se eu encostar mesmo o ouvido à tela te ouvirei dizer-me «Boa noite. Dorme bem.»? E se mergulhar dentro dela?
Já encostei o ouvido ao telemóvel, mesmo sabendo que não está estabelecida nenhuma chamada, mesmo que no visor apenas apareçam as horas (as horas, as horas...) e a operadora. Não está lá o teu nome a piscar, não estás a ligar-me, não queres falar comigo. Já encostei o ouvido ao telemóvel só para ver se do outro lado surgiria um fio da tua voz, mas nada. Nada. O silêncio. Só o silêncio.
Então, deixo-me submergir no sono, no sonho. Fecho os olhos e peço com todas as forças que tenho que ele venha depressa, asinha, asinha! E ele às vezes faz-me a vontade, outras deixa-me alguns minutos, que chegam mesmo a transformar-se em horas, à espera. Mas é quando o sono me encharca que te vejo surgir, ali, no meu real imaginário, linda como sempre, linda como nunca. Inclinas a cabeça sobre a minha e cheiras-me os caracóis. E beijas-me a testa, o rosto, os lábios. Desperto. Sorris para mim e dizes-me: «Vá, levanta-te!» e eu ergo-me, ainda incrédula da tua presença. Levas-me pela mão a atravessar os rios, os mares, a revisitar todos os lugares que são nossos, a ouvir todas as músicas que foram cenário sonoro dos nossos encontros. Levas-me pela mão ao nosso mundo, àquele mundo só nosso que é este em que ainda agora vivo. Depois, deixas-me ficar sentada naquela cadeira onde pela primeira vez me beijaste e aproximas-te da janela. Abres a portada, sobes ao parapeito e, abrindo os braços, voltas a cabeça para mim e deixas-te afundar no escuro daquela noite em que pela primeira vez nos beijámos. Corro para ti. Deixo para trás os livros abertos, as canetas, as folhas de papel sobre a mesa e grito o teu nome tão alto que desperto estremunhada do sonho. É quando te abeiras novamente de mim, inclinas a tua cabeça sobre a minha para me cheirares os caracóis e me beijares outra vez, mais uma vez. E como na canção do Godinho que tu mesma me deste a ouvir pela primeira vez, digo baixinho «Olá», enquanto tu sorris e me dizes «'Inda bem que voltaste».
Por isso mesmo, nesta como em todas as noites, vou ali ter connosco, no meu real imaginário. E tu, vens comigo? ;)



Renée Magritte. La Lunette D'Aproche. 1963


A Noite Passada
Letra e música: Sérgio Godinho

A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas «sou gaivota e fui sereia»
ri-me de ti «Então porque não voas?»
e então tu olhaste, depois sorriste
abriste a janela e voaste.

A noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar-alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo, dormias lá no fundo
faltou-me o pé, senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos e então dissemos:
«Aqui vivemos muitos anos».

A noite passada o paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estava do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti, disse baixinho «Olá»
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então tu olhaste, depois sorriste
disseste «'Inda bem que voltaste».

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