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terça-feira, 26 de setembro de 2006

Caminho feito 

Quando comecei este texto, supostamente seria apenas um comentário a este post. Mas quem já me lê há algum tempo já sabe que eu não tenho propriamente o dom da síntese e como o comentário estava a dar lugar a uma considerável dissertação sobre o tema, achei mais sensato não invadir a caixa de comentários da My Mind com o meu palavreado e fazer isso na minha própria casa. Não que não me sinta bem-vinda no Luzes do Meu Céu, muito pelo contrário, mas porque aqui me sinto mais à vontade para publicar o longo texto que se segue. Fica aqui desde já o agradecimento à My Mind pelo mote para a minha reflexão. :)

Tudo começou quando li a citação de António Damásio, extraída do livro Ao Encontro de Espinosa: «Os Sentimentos de dor ou prazer são os alicerces da mente.».
Concordo inteiramente com a frase de Damásio. Sem dúvida, a dor e o prazer alicerçam a nossa mente. Mas, penso, não um sem o outro. A acção conjunta de ambos é que nos dá estrutura para enfrentar as diferentes situações: a dor para o caso do sofrimento e o prazer para o caso da alegria. A estrutura tem de ter, por isso, ambos os pilares.

Na sua própria reflexão, a My Mind começa por dizer, e muito bem, que «Os sentimentos são forças.». Sem dúvida que o são. Mas tanto é força o sentimento da dor como o do prazer. Por isso, não posso concordar com a ideia de que o sentimento da dor nos repele. A meu ver, não é o sentimento da dor que nos repele, nós é que o repelimos a ele, porque o ser humano busca sempre o que lhe é mais fácil, menos penoso. Tod@s nós sabemos que é muito mais fácil lidar com o prazer do que com a dor. Todavia, o prazer, embora nos fortaleça porque nos dá bem-estar, é muitíssimo menos exigente: basta-se com a nossa passividade para que o gozemos, e por isso, se não for conquistado mas simplesmente encontrado, se não for merecido mas apenas ocasional, contribui pouco para o nosso engrandecimento enquanto seres humanos. Já a dor, essa, fortalece-nos, precisamente porque exige de nós, porque põe à prova todas as nossas capacidades, todos os nossos limites. A dor transporta o ser humano até ao limite, disso não tenho dúvida.

Importa responder, então: Como reagimos à dor?
- Acomodamo-nos, dizemos mal da nossa vidinha, do destino, da astrologia, do diabo a quatro e vivemos permanentemente infelizes?
- Procuramos substituir a dor pelo prazer imediato?
- Tentamos submergi-la em alegrias vãs, do "agora"?
- Ignoramos a dor e concentramos todas as forças naquilo que, de momento, nos dá prazer?
- Eliminamos da nossa vida os factores ou as pessoas que para nós são a ocasião dessa dor?
Podemos fazê-lo, obviamente. Mas a grande questão é também a de saber se isso faz de nós pessoas melhores, pessoas em evolução (aqui no sentido de aprendizagem) ou se, pelo contrário, é sinónimo de estagnação no que diz respeito ao nosso percurso individual.

Do meu ponto de vista, nenhum dos comportamentos enunciados é o melhor modo de lidar com o factor dor na nossa vida. Repelir, sem mais, a dor, é o mesmo que não a aceitar, não a compreender, não lhe fazer o diagnóstico, não fazer o esforço para encontrar dentro de nós mesmos a força necessária para conviver com ela. Porque ainda que a ignoremos e nos concentremos no prazer imediato, que no momento presente nos parece o melhor antídoto para a combater, a dor não deixará de existir. Nós repelimo-la, mas ela permanece. Pois bem. E qual é, então, a solução?

Sem quaisquer pretensões a apresentar fórmulas mágicas (até porque nenhumas capacidades tenho para tal), tenho cá as minhas ideias quanto a isto. Para mim, o melhor modo de lidar com o sentimento da dor é a compreensão dessa dor. Só podemos lutar contra aquilo que conhecemos, porque se não conhecemos, não dominamos. Depois de, numa primeira fase, avaliarmos a dor, depois de percebermos porque é que ela existe em nós, chegamos ao segundo estádio, o da transformação. Transformar a dor em algo de positivo, em "caminho feito", num sentimento igualmente nosso, que é parte integrante de todas as experiências de vida tal como é o prazer e saber lidar com ela. Assim, continuamos a ter os dois pilares estruturantes (o prazer e a dor) e conseguimos conviver com ambos saudavelmente. Porque, e aqui volto ao início, precisamos de ambos para estruturar a nossa própria mente (recorro novamente às palavras de Damásio). Se, simplesmente, nos concentramos num dos pilares deixando o outro enfraquecer, ficamos inevitavelmente não estruturados, desequilibrados ou, figurativamente, "coxos". E, então, não resistiremos à tentação de procurar outros pilares que venham substituir a dor, outros factores que apenas tragam prazer. Não seremos capazes, em suma, de resistir ao apelo fácil da nossa natureza humana (demasiado humana) para substituirmos um sentimento pelo outro, esquecendo, no entanto, que o alicerce desse prazer compensador/substitutivo é nenhum, pois não tem a estrutura do prazer, mas a da dor.

Em face disto, chego à conclusão de que prefiro fazer a estrada da minha evolução/aprendizagem individual devagar, em pequenos passos, mas em cima dos meus próprios dois pés, que é como quem diz, em cima daquilo que é a minha estrutura (dor e prazer). Prefiro-o, a fazer esse percurso rapidamente, pela via fácil do prazer imediato. E digo isto tão-somente porque sei, já desde que em bebé comecei a gatinhar, que é mais seguro caminhar/aprender lentamente por nós mesmos, do que apoiad@s nas "muletas" que se oferecem para fazer connosco o caminho. Só assim, estou convicta, serei capaz de obter a gratificação intrínseca e o imprescindível equilíbrio (homeostase) de que fala a My Mind.

Mas porque não gosto de faltar à verdade, depois deste palavreado todo, tenho também de admitir que apesar de ter esta convicção, nem sempre consigo cumprir à risca tudo o que deixo aqui dito. Já dei por mim (talvez já tod@s nós tenhamos dado por nós) a substituir a dor pela alegria imediata, a fechar o sofrimento num compartimento isolado ou a afastar-me daquilo que me fazia sofrer para me aproximar daquilo que me fazia sorrir. Porém, o resultado que tenho hoje é apenas a memória dessa alegria que acabou por passar com ligeireza e a imagem dos meus próprios pés, ainda parados no mesmíssimo lugar da estrada da minha vida...

Antes de concluir, gostaria ainda de fazer uma ressalva. Nada neste texto pretende fazer a apologia da dor ou defender que o sofrimento seja preferível ao prazer. Longe disso. O prazer a que fiz referência é aquele que entra nas nossas vidas apenas como compensador da dor, apenas como alternativa imediata à dor. O prazer genuíno, aquele que privilegiadamente vivemos com alicerces de verdadeiro prazer é tão importante como estruturante e, por isso, tão necessário como o sofrimento. Penso que quanto a isto não restarão dúvidas.

Porque entendo que vai de encontro ao que disse neste texto, para finalizar recorro à frase da My Mind, que julgo ser uma excelente chave-de-ouro: «Sem fortes alicerces, a mente arrisca-se a desabar. O corpo a ruir.». Pois é, minha boa gente: está nas nossas mãos não permitir que tal aconteça.


Na grafonola: The Longest Road, do David Fonseca, do álbum Our Heart Will Beat As One. Porque se eu tivesse de imaginar um monólogo com todos os seres humanos que fazem o caminho da vida amparados em "muletas" e não pelos seus próprios pés, seriam estas as palavras que eu poria na boca da dor. ;)

The longest road
David Fonseca


You lie on your bed like a submarine
With an open window letting the water in
Like a voice in a choir
A flicker on a fluorescent tube
An injured bird wandering around the room
That was caught in the wire
So don't you go playing tough
I know this game and I had enough
So let's keep it clear
Free from all those little schemes
A little bit more like dreams

It's right in front of you
The longest road for you to walk through
If this is the place to start
Then go, follow your heart

You're famous for you dancing feet
But your're tap-dancing on wet concrete
Hey Fred, cool it down
You're pointing cameras at hurricanes
Like you could stop them lock them in frames
A scream with no sound
So don't you go and be the best
There's no one running, this ain't a test
It's you and me here
This is like nothing you've seen
Like a nightmare, like a dream

It's right in front of you
The longest road for you to walk through
If this is the place to start
Then go, follow your heart

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