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sábado, 4 de fevereiro de 2006

O último dos moicanos 

Quem priva comigo diariamente sabe que o humor, longe de ser uma disposição de ânimo momentânea e passageira, é, para mim, o modo normal de dizer as coisas. Aliás, devo até reconhecer que, de tanto que assim é, o humor chega a ser um defeito, a dificultar a percepção, por parte de quem se vai cruzando comigo, da fronteira da verdade por trás dos sorrisos.
No entanto, apesar desta minha relação quase inata com o humor, confesso que há formas de humor que, de tão básicas, torpes ou mesquinhas, conseguem provocar em mim precisamente o oposto do que seria expectável que o humor provocasse.

Um bom exemplo desse tipo de "humersquinho" é aquele de que Miguel Sousa Tavares - o comentador (e já não o escritor de romances históricos que muito admiro e cujo mérito não posso deixar de realçar) lança mão sempre que o tema é a homossexualidade.

Pois é, mais uma vez, o escritor que deveria ser só de romances, não resistiu à ironiazinha de mesa de café na sua crónica semanal do Expresso:

Começa assim a segunda página de um dos semanários mais lidos da nossa praça:


"Já faltou mais para que um dia destes tenha que passar à clandestinidade ou, no mínimo, tenha de me enfiar em casa a viver os meus vícios secretos. Tenho um catálogo deles e todos me parecem ameaçados: sou heterossexual 'full time'(...)"


... e depois lá segue, um dos mais "conceituados" "comentadores" deste país, na enunciação de todos os vícios que sente ameaçados por esta nossa sociedade truculenta, desde o seu vício pelo tabaco ao seu vício pela caça!

Sobre a homossexualidade, voltamos a poder ler umas linhas à frente, que o condescendente senhor até nem tem nada contra os casamentos homossexuais (nada de dizer que é a favor, qual quê?! Só que não tem nada contra, um comentário em jeito de voto em branco, daqui lavo as minhas mãos, não me quero misturar numa luta que não me diz nada, nem a "part-time" que a violação é de direitos deles e não meus!), mas logo com a ressalva de que é contra a adopção por casais homossexuais (e só não deve ter ressalvado a descriminalização das drogas leves, do aborto, da prostituição e da caça ao gafanhoto preto porque o limite de linhas que o Expresso lhe reserva para a sua excelsa crónica semanal não permitiam).

Confesso que não consegui conter a irritação logo ao primeiro virar de página da primeira hora de um Sábado que queria calmo. E não julguem que é por ser ingénua ao ponto de não acreditar que, nesta precisa hora, já noite cerrada, o Sr. Zé da esquina não possa perfeitamente estar a dirigir-se à tasca do Quim, lá na aldeia, para lhe pedir uma cerveja e comentar com o resto dos homens da terra as notícias da semana. Consigo até imaginá-lo, a ouvir a pergunta do João do talho: "Olha lá, ouviste aquelas gajas que se querem casar?" com a resposta pronta: "Ouvi, ouvi! Olha, isto está mal é para nós! Como o Mundo vai, qualquer dia temos é que pedir autorização para gostar de mulheres!" E a conversa seguirá, daí para a frente, animada com conversas mais ou menos narráveis, de homens muito homens, virilidade ali logo provada nas primeiras palavras trocadas!
Conheço demais a realidade para me irritar com este tipo de discursos quando são proferidas nas tascas dos Quins pelos Zés da esquina deste país, não consigo, porém, deixar de indignar-me quando leio estas mesmas palavras sob a veste de ironia pseudo-iluminada nas páginas de um jornal que se quer sério!

Lidas tamanhas barbaridades não consigo deixar de interrogar-me: sendo a heterossexualidade uma orientação sexual, será a "heterossexualidade a full time" a característica daquele que, em todos os momentos do dia-a-dia, não deixa de sentir-se sexualmente atraído por pessoas do sexo oposto, ficando toda a sua actuação condicionada por essa atracção? E, por que raio de razão, há-de o Sr. Miguel Sousa Tavares sentir-se ameaçado nesse seu vício pelo facto de uma meia dúzia (não são, afinal, uma meia dúzia os homossexuais portugueses?!) de homossexuais pretender celebrar um contrato em que um dos sinalagmas até é o dever de fidelidade, a garantir que o contrato apenas produzirá efeitos entre as partes, ficando assim circunscrito o "vírus" que eventualmente afectasse terceiros?! Não terá o Sr. Miguel Sousa Tavares reparado que quando os homossexuais portugueses pugnam pelo direito ao casamento estão a pugnar precisamente pelo direito de não terem que se "enfiar em casa a viver os seus vícios secretos"? E mais, porque razão precisa o Sr. Miguel Sousa Tavares de confundir os leitores que prezam a sua opinião com a questão da adopção por homossexuais? Não conhece o Sr. Miguel Sousa Tavaresa a lei da adopção? Não sabe que, sendo uma lei específica, que pressupõe, por todo o conjunto de regras que estabelece que o casal adoptante seja constituído por um homem e uma mulher, tal lei em nada seria alterada com a admissão do casamento entre homossexuais?
Enfim, de repente, de tão irritada que fico apetece-me até perguntar aos directores do Expresso que comentadores são estes, os por si escolhidos, que em vez de procurarem expor as suas opiniões com argumentos verdadeiros e intelectualmente honestos, se lançam em exercícios, falaciosos e nublados, que nem de boa retórica são!

Mas de repente, também, percebo que comentadores como este, que conseguiu virar-me o humor do avesso logo pela manhã, com as suas meias-palavras inteiramente demagógicas, não procuram nada mais senão encher de caracteres as linhas das suas duas colunas de glória, sem qualquer consciência do peso das consequências que esses caracteres podem ter.
E, finalmente, dou por mim, a interrogar-me como seria se as pessoas levassem mesmo a sério o que Miguel Sousa Tavares escreve! Será que imaginariam, ao ler as linhas que citei, um Miguel Sousa Tavares fechado no seu quarto, vestido de índio, correndo em círculo atrás de uma índia, de cigarro na boca, atirando caracteres em vez de setas e a gritar que é o último dos moicanos?
E não consigo deixar de reconhecer: Miguel Sousa Tavares o comentador, não passa afinal de um escritor de banalidades, que tem, na fé em si próprio, a mais hilariante das suas ironias!

Comentários:
só quem leva o Miguel Sousa Tavares assim tão a sério é que pode ficar tão irritada com o que ele escreve. e porque é que um comentário dele terá tanto valor?!vale o que vale, mesmo sendo ele um bom escritor e tão considerado. a asneira é livre. e não vale a pena estragar um fim de semana por isso.
 
Subscrevo. Há anos que não o suporto, daquilo que vi como comentador de T.V. Nunca li nada dele, não sei se é bom escritor mas o carácter dele não me convida para a leitura. É um gajo que colecciona lugares comuns, contradiz-se com facilidade, não admite as asneiras que diz porque no fundo toda a sua argumentação é frágil. As tuas conclusões revelam lucidez.
Hasta...
 
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