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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006

É esta a nossa hora! (IV) 

Por falta de tempo não me foi possível manter o objetivo de publicar aqui algumas das notícias/artigos relacionados com o desafio a que a Lena e a Teresa se propuseram. Na esperança de que ainda sejam úteis e porque faço questão de que sejam reproduzidas e publicadas aqui no blog, seguem-se duas notícias escritas por Sofia Branco para o PÚBLICO e a crónica de opinião que Rui Costa Pinto escreve habitualmente para a VISÃO, que o jornalista dedicou à temática.

Quando duas lésbicas não têm nada a perder
Por Sofia Branco (publicada na edição impressa do PÚBLICO em 29.01.2006)

Conheceram-se através de amigos comuns, em Lisboa, e apaixonaram-se. Resolveram não o esconder, numa sociedade que continua a discriminar amores entre pessoas do mesmo sexo. Desde então, a história de Teresa e Lena tem sido feia de "perseguições" e de mudanças: de casa e de emprego. Passados quase quatro anos de vida em comum, querem casar-se. E, garantem, nada as fará desistir. O passo está dado – deram a cara e vão à Conservatória na próxima quarta-feira. Afinal, não é o amor que tudo pode?

"Não temos nada a esconder. Já não temos nada a perder." Teresa e Lena não temem a exposição pública a que passaram a estar sujeitas desde que anunciaram a intenção de se casarem, na próxima quarta-feira, na 7.ª Conservatória de Lisboa. O casamento é "" a concretização de um sonho, porque elas já fazem "tudo". Andam de mão dada na rua, beijam-se quando se querem beijar – "como fazem um homem e uma mulher" – e, principalmente, estão lá uma, uma para a outra.
Fazem "tudo" mas sabem que esse "tudo" não é reconhecido pelo Estado português. Continuam a não poder abrir um empréstimo conjunto, herdarem uma da outra, alugarem casa as duas, visitarem-se no hospital, partilharem responsabilidades pelas filhas que ambas trazem doutros casamentos.
A situação em que vivem actualmente é tudo menos fácil. Mudaram de casa vezes sem conta, por pressão familiar ou por hostilidade de terceiros. Em busca de um ambiente mais acolhedor, que se propõem a descobrir em Portugal. Tentaram vários empregos, mas nunca aceitaram responder com uma mentira às perguntas sobre a sua vida privada e viram currículos serem rasgados à frente dos seus olhos. Actualmente, "sobrevivem" com a ajuda de "uma pessoa amiga" e com a pensão de alimentos paga pelo pai de Marisa: 125 euros. A vida é, portanto, feita de atrasos: na renda, na água, na luz. Mas encarada com um sorriso nos lábios. "Chorar para quê?", pergunta Teresa. Afinal, têm-se uma à outra. E isso é alguma coisa. É talvez tudo.
Não admitem nada menos do que um casamento. "Em união de facto já nós vivemos. Queremos casar. Temos esse direito. E muitos outros, iguais aos das outras pessoas." E querem dar o seu contributo para "mudar as coisas no país". Um dia vai ser possível, acreditam. Como não serem optimistas, quando tudo lhes correu mal? "Pior não pode ficar". E vão sonhando em construir uma quinta pedagógica e em dedicarem-se à jardinagem.

"Malas à porta"

Quando Teresa foi "apanhada" pelos pais a namorar com Lena, deu em "escândalo certo". "Tinha duas hipóteses: ou a esquecia, ou saía de casa", conta Teresa, de 28 anos, no apartamento que partilha com Lena e a filha desta, Marisa, e onde deixou entrar o PÚBLICO. No dia seguinte, "tinha as malas à porta". Resolveram ir viver juntas. Primeiro em Lisboa, agora em Aveiro.
Enquanto procurava estabilidade na sua "nova" vida, conta Teresa, pediu aos pais para que ficassem com Bia, a sua filha, até que ela reunisse "condições" para ter a menina a viver consigo. Mas Bia não mais lhe foi entregue. Os avós maternos, que "não reconhecem" o amor de Teresa e de Lena, exigiram ficar com a neta, o ex-marido lançou várias ameaças, "a polícia nada fez", o advogado "não fez tudo o que deveria ter feito".
O tribunal, que concedeu o poder paternal, provisoriamente, aos avós, considerou que Teresa tinha "falta de condições morais". A mesma justiça que entrega frequentemente a tutela dos filhos à mãe autorizou Teresa a ver Bia apenas de 15 em 15 dias, aos domingos, e a pagar à filha uma pensão de alimentos de 200 euros. Teresa recusou-se a fazê-lo, por achar que legitimaria uma situação que ela considera ilegítima. Por não ter dúvidas de que estava a ser alvo de uma discriminação muito específica por ser lésbica e ter optado por assumir a sua relação com Lena.

Acusada de rapto

Desde então, Teresa viu Bia apenas duas vezes nos últimos dois anos. Durante este período, acrescenta, nunca foi visitada por uma assistente social para avaliar as tais "condições morais". "O meu ex-marido vai buscar a criança quando lhe apetece", compara, contando que, no último Natal, pediu ao pai para que lhe deixasse trazer Bia para o apartamento onde vive, na zona de Aveiro. O pai rejeitou o pedido, mas Teresa foi buscar a filha a Lisboa e trouxe-a na mesma. Foi acusada de "rapto", e "vigiada pela GNR" durante o tempo em que Bia – que "todos os dias falava com os avós" – esteve consigo. "Estamos a perder a infância da criança", lamenta o casal de lésbicas. Marisa, a filha de Lena, com onze anos, também tem pena de não poder estar mais tempo com a irmã.


Marisa - A filha de duas mães

Por Sofia Branco (publicada na edição impressa do PÚBLICO em 29.01.2006)

Onze anos de uma maturidade avassaladora. Marisa fala pelos cotovelos. Conta tudo, com uum brilho de felicidade nos olhos rasgados em formato de amêndoa. Na escola, quando tem que preencher as clássicas fichas de inscrição, Marisa risca a frase "nome do pai", escreve por cima "nome da mãe", coloca o nome de Teresa a seguir. Uma professora chegou a dizer-lhe que "mãe há só uma" e que ela não podia ter duas mães. Marisa respondeu que "podia, sim senhora". A directora de turma deu-lhe razão.
Marisa tem as respostas na ponta da língua. Conta que uma vez um amigo lhe disse, no intervalo, que "se tivesse um filho homossexual o punha fora de casa". Fez questão de dizer que não concordava com o que o amigo tinha dito e que "ainda apoiaria mais o filho ou a filha".
No 5.º ano, tem muitos amigos, que sabem que Marisa tem duas mães e que não a discriminam. Está em pulgas porque espera poder levá-los lá a casa quando fizer anos, no próximo dia 12 de Abril. Quer que os outros meninos saibam que ela tem uma vida como a deles e que gosta muito, "muito mesmo", das suas mães. Tanto como dos D’Zert, de quem é fã. É esta banda que, Marisa tem a certeza, um dia tocará na festa do casamento da "mãe loira" e da "mãe morena". As suas duas mães discutem, como todos os pais. "Mas resolvem as coisas rápido", assegura.
Marisa faz questão de dizer que "não tem negativas" e que alguns professores a apoiam muito na escola, como o de Matemática. É uma optimista. E não percebe por que não é possível gostar de quem se quiser. Nem por que razão um vizinho a molhou com uma mangueira quando passeava na rua com as suas mães, que se beijaram. Ela gosta de rapazes e conta às mães histórias dos pretendentes. Também gosta de futebol e é fanática pelo Benfica. Gostava de ser veterinária ou bióloga. E não perde um episódio de Morangos com Açúcar.

"Aprendia a sonhar com a Teresa"

Cabelos longos, loiros, casaco castanho de pêlo, calças de ganga. É a mãe biológica de Marisa, que deixou de estudar "muito nova" porque teve de "ir trabalhar". Casou-se, divorciou-se, apaixonou-se por uma mulher. "Aprendi a rir e a sonhar com a Teresa." E ri, muito. Mas também fica séria de repente, a pensar muito bem no que vai dizer.
Marisa faz o retrato da "mãe loira": cozinha muito bem, ferve em pouca água, não tem medo de aranhas.

Teresa – "Só posso ser mulher dela em casa?"

Cabelos longos, castanhos, casaco castanho de pêlo, calças de ganga. É a mãe biológica de Bia, que só viu duas vezes nos últimos dois anos. É a mais frontal, que dispara aquilo que pensa através da sua voz grave. "Então, só posso ser mulher dela em casa e na rua sou o quê? Amiga?" "Acho que as pessoas me vêem como um ET", lamenta, com humor.
As palavras de Marisa sobre a "mãe morena": é a que faz bolos e umas salsichas com lombardos óptimas, a que pula em cima da cama, a mais brincalhona, mas também a que a apanha mais facilmente a mentir e a repreende.


Um país em mudança

Por Rui Costa Pinto (Publicada na VISÃO em 30.01.2006)

A defesa da igualdade de direitos para os casais homossexuais nem é de esquerda nem é de direita: é uma questão de liberdade

O casamento entre duas mulheres, marcado para quarta-feira, 1 de Fevereiro, na 7ª Conservatória do Registo Civil, em Lisboa, é muito mais do que um caso mediático.
Teresa e Lena, de 28 e 35 anos, respectivamente, são a prova de que existe uma sociedade viva, que não se conforma com a proibição do casamento civil entre duas pessoas do mesmo sexo.
Certas da força e da razão do articulado constitucional, nomeadamente do artigo 13º, que proíbe qualquer tipo de discriminação com base na orientação sexual, ambas decidiram correr o risco de conquistar o direito a casar.
Sem esperar pela resposta a uma petição a entregar no Parlamento, que já reuniu mais de quarto mil assinaturas, Teresa e Lena decidiram enfrentar, com a cara destapada, os poderes instalados, que insistem nos tiques marialvas, apesar da fina camada de verniz liberal.
Este casamento é muito mais do que um acto de amor.
É um sinal de que existe, em Portugal, uma sociedade que não encontra resposta nos partidos políticos, que hipocritamente continuam a varrer para debaixo do tapete uma questão de civilização.
Enquanto a classe dirigente se contenta com umas viagens a Paris, a Londres e a Nova Iorque para reivindicar o estatuto de elite cosmopolita, as grandes causas da sociedade civil continuam a passar-lhe completamente ao lado.
O desafio a quem persiste em tentar deixar apodrecer mais uma questão incómoda constitui um sinal de esperança.
Tal como a candidatura de Manuel Alegre, que seduziu mais de um milhão de portugueses, a opção pública de duas jovens homossexuais representa uma cidadania revigorada, um pais em mudança.
Apesar dos esforços de alguns, em justificar o injustificável, a verdade é que existe uma parte da sociedade que está farta do actual status quo, engordado à custa do moralismo reinante e dos negócios que tresandam a corrupção e a tráfico de influências.
A defesa da igualdade de direitos para os casais homossexuais nem é de esquerda nem é de direita: é uma questão de liberdade.
Os sonhos das duas jovens merecem a atenção e uma resposta de todos, nomeadamente dos que têm responsabilidades legislativas e governativas.
A vida das pessoas é mais importante do que as manobras dilatórias e politiqueiras.

Comentários:
Claro que se deve apoiar o direito da Tete e da Lena casarem. Já agora vamos aproveitar a opurtinidade para apoiar todos os nossos cidadãos oprimidos por essa maldita lei do casamento. Vamos casar com as nossas irmãs, com as nossas primas, mães, avós...e o direito que um homem tem de casar com aquelas vizinha de 12 anos que nunca fecha a janela do quarto quando muda de roupa? Razão tinha o Bibi, esse pioneiro incompreedndido da Liberdade de amar.
Sabem a história daquele pobre pastor que queria casar com uma ovelha que já namorava à 4 anos? Conheceram-se através de uns amigos comums...numa sociedade que continua a discriminar amores entre pessoas de diferentes espécies...
Enfim, vamos lá mudar essa lei da treta, e casar, com quem ou com o quê não interessa. Não interessa a ninguém quem (ou o quê...) amamos. Viva a Liberdade!
 
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