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segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

O futuro do passado 

As Três Idades do Homem, Salvador Dali (1940)
As Três Idades do Homem (1940), Salvador Dali
A paisagem mostra três bustos de homem em diferentes estádios da vida: o homem velho, o adulto e a criança.
Vê-se ainda a cidade de Port Lligat por entre os arcos de ruínas de Ampurias.


Penso que já o escrevi imensas vezes aqui, mas não me canso de repeti-lo: o que mais me fascina na blogosfera é a capacidade que guarda de me surpreender, a cada novo clique, com a genialidade (não há por que ser parca nos elogios quando são merecidos) de tantos portugueses anónimos, que escrevem com uma qualidade difícil de encontrar em muitas bancas de editoras nacionais e estrangeiras! Fascinam-me as palavras escritas na primeira pessoa, os textos que, de tão verdadeiros e pessoais, emocionam e fazem pensar, as frases-espelho, que nos tocam e reflectem... frases como esta, com que me cruzei no blog "Querida Guitarra":

Porque eu acho que vou conservando todas as idades que tive como se não tivessem expirado o seu prazo.

Estranha esta sensação de nos vermos assim, completamente ditos, contados e descobertos nas palavras de outros... Presunçosa, esta nossa (minha?) suposição de que os sentimentos são só nossos, só nossas as mágoas, nossos só e inefáveis, os medos, os tremores, as ansiedades... Convictos e consternados com esta condição da unicidade, lá andamos (deixem-me usar o plural, para não me sentir isolada!) vida/sorrisos/abraços fora, fechados sobre a inevitabilidade da barreira que sempre cremos existir na linguagem, na falada e na outra, a corporal, que diz tão pouco do quanto queremos dizer!...
E, de repente, alguém, como o Guitarrista, irrompe-nos pela intimidade dentro - ou já nem é intimidade, é íntimo, imo - para ser mais dentro ainda - âmago, o sítio lá no fundo do ser onde o eu é só eu, a cru, a nú, sem máscaras e sem defesas - para nos arrancar o mais escondido dos sentires e escrever, com as palavras exactas:

Porque eu acho que vou conservando todas as idades que tive como se não tivessem expirado o seu prazo.

E, de repente, perante estas palavras, também eu tenho sete anos, e sorrio no intervalo das aulas enquanto partilho o lanche preparado de madrugada pela mãe com o C., o miúdo com pais ricos de mais para terem tempo para o filho, e brinco à cabra-cega e conto até trinta contra a parede cinzenta da escola enquanto sinto o vento dos miúdos que se escondem... e sorrio nos lanches cheios de primos e sabores em casa de uma avó também ela sorridente... e sorrio de novo nos passeios de fim-de-tarde até casa, pai numa mão, mãe na outra, futuro mais longe que qualquer pensamento... e sorrio mais ainda quando me cruzo, no mesmo sítio de sempre, com a amiga dos meus pais que não passa sem me dizer: "Tens um sorriso tão bonito! Vê-se mesmo que és uma criança feliz!"... E, de repente, sou mesmo!

E, de repente, tenho também dezasseis anos e sorrio entregue a amizades inquestionavelmente para a vida, a projectos únicos e que, cremos todos, marcarão, para sempre, os jovens desta cidade... sorrio, e o Douro reflecte o primeiro brilho de um olhar apaixonado... sorrio e despertam em mim todos os sonhos, todas as ânsias, traça-se em mim, bem definido e claro, o futuro especial da missão que me foi dada... sorrio a alguém que me diz que tudo aqui é perfeito... E, de repente, é mesmo!

E, de repente, tenho vinte anos e já não é ao Douro que sorrio mas ao Mondego, e já vem com Amor o brilho da paixão... sorrio e a amizade é já chão e comunhão... sorrio e sinto, ao som da guitarra, que o futuro são todas as possibilidades... sorrio e fecho os olhos enquanto o trovador de capa traçada na noite me sussurra ao ouvido que vivo um sonho... E, de repente, vivo mesmo!...

... Mas, de repente, também, chego aqui, ao agora... sorrio já apenas o sorriso social, aquele que fica bem em qualquer ocasião, sorrio enquanto as horas de trabalho me roubam todos os outros sorrisos... e, de repente apercebo-me, que já não é sorriso o que esboço, mas só ginástica, quando, no meio da correria, alguém me diz que nasci para fazer o que faço agora... E, de repente, dou por mim a perguntar: mas nasci mesmo?, enquanto constato que

vou conservando todas as idades que tive como se não tivessem expirado o seu prazo.

Pois é, estão cá todas as idades... todas menos uma: a presente!... E isto porque me recuso a reconhecer no presente o futuro que era nas idades que ainda sou! Assusta-me sentir que o futuro que fui é, afinal, tão só isto! Custa-me, acima de tudo, compreender, onde foi que, de repente, o que julguei ser presente se tranformou em passado...
E, no meio do meu síndrome Peter Pan, dou por mim a perguntar-me se as outras pessoas também serão assim: se os mais cinzentos dos homens também sentem o pulsar do ventre materno, quando ao deitar, dobram os joelhos e entrelaçam os braços como antes do seu primeiro natal... se as mais sérias mulheres recordam ainda, nos almoços de negócios ainda mais sérios que elas, com os sabores das comidas das avós, os sorrisos das casas cheias de primos e Amor... se todos os seres austeros com que me cruzo, sentem ainda nas veias, o pulsar da adrenalina dos sonhos da adolescência...
Adivinho a resposta pelas palavras iguais com que me cruzo por essa blogosfera fora... E, no entanto, não consigo deixar de me sentir tentada a acreditar que o meu presente é tão só e ainda o passado das idades que em mim não se expiraram e que o futuro, será ainda lá longe, onde as circunstâncias permitirem que o presente seja o que hoje quero para o futuro...

... Bem, mas isto sou já eu a divagar. O que queria mesmo dizer-vos era que fossem ler o post do Guitarrista, que, esse sim, está excelente!

Comentários:
Também eu não sou o que era... felizmente! O presente não se define pelas primaveras já passadas, nem pelas que ainda vão passar. Define-se sim, pelas primaveras que ainda passam. Somos a definição do que pensamos, a concretização do que fazemos... não do que fizemos nem do que havemos de fazer! Os sonhos esses... são passado se nos esquecermos, são futuro se não os tivemos e são presente apenas se os quisermos.
 
“Conservar todas as idades…”, uma fórmula extremamente bela na sua precisão. O verso que um dia faz vibrar todo o poema de modo novo.
Se “as outras pessoas também serão assim”, acho muito que sim, AssumidaMente; mas que não estão sempre atentas ou conscientes disso; e incluo-me também nessas “outras pessoas”.
O peso do personagem que fazemos viver por aí é tal que pode fazer esquecer que, sob ele, estamos nós, animaizinhos esquivos encolhendo-se na lura ao aproximar da sombra ameaçadora, deixando a máscara fazer as pantominas lógicas que nos tornam explicáveis.
Hei-de lembrar-me sempre deste momento, pensei um dia, deitada por entre as ervas altas, quase adormecida pelo murmúrio do vento nas árvores próximas. Vivo o sentimento de então uma outra vez, a paz de quem se sente confiante em tudo em volta, sentimento absoluto de protecção, de que nenhum mal a atingirá, da criança cujo pai, invisível mas tranquilizador, pesca no rio uns metros mais adiante.
Nunca sei bem o que fazer o que fazer com esta impressão.
~~marta
 
Skeptikal, gostava de ter, como tu, o dom de viver o presente sem projecções, passadas ou futuras... e, daí, talvez não: gosto deste sabor da memória misturada com o sonho! O que transmito, aliás, no post é o receio de, um dia acordar e sentir que passou o tempo de sonhar!

ignorantia... eu sei bem o que fazer com impressões idênticas: ajudam-me a manter o ritmo da respiração quando tudo à volta parece desmoronar-se ;-)
 
assumidamente, por isso eu disse "também eu já sou o que era... felizmente". As memórias que tenho do meu passado, não são algo que me dê prazer recordar. Tu tens algo que te dá prazer recordar... ainda bem! aproveita!
 
skeptikal, got it ;-) ... mas, ainda assim, não acredito que tudo no teu passado sejam dias sem cor, sem cheiros e sem sabores!
 
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