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sábado, 7 de janeiro de 2006

In memoriam 

António Gancho (1940-2005)
António Luís Valente Gancho
(1940-31.XII.2005)

Dizem que morreu a rir e diz-se que foi de ataque cardíaco, após 38 anos de internamento na Casa de Saúde do Telhal. Pouco se sabe acerca das circunstâncias da morte do poeta "louco", como pouco se soube da sua vida e da obra, escrita integralmente no manicómio. "Foi muito mal tratado pela sociedade. É mais um caso de abuso psiquiátrico, de miséria nacional e institucional", disse o pintor Álvaro Lapa, conterrâneo de António Gancho, que lhe arranjou editor quando o então novel poeta o informou de que tinha um livro por publicar. "Era um homem de grande lucidez poética", como o retrata Manuel Rosa, da Assírio & Alvim, a editora que publicou aquela que é considerada a grande obra de António Gancho, O Ar da Manhã, em 1995. Um livro que, segundo o poeta, "são quatro livros" num volume: O Ar da Manhã, Gaio do Espírito, Poesia Prometida e Poemas Digitais de onde se destaca este:

Noite, vem noite sobre mim sobre nós
dá repouso absoluto de tudo
traz peixes e abismos para nos abismarmos
traz o sono traz a morte

Ar da Manhã, António Gancho (Assírio & Alvim)
António Luís Valente Gancho nasceu em Évora em 1940 e desde os 20 anos que correu várias instituições psiquiátricas. Dizia ser Luiz Vaz de Camões, Bocage, Kafka, Pessoa e todos os escritores que admirava. Dizia ainda que não sabia por que escrevia, que o escritor "só pode ser escritor quando já nasceu escritor" e que "a imaginação é tudo. É ela que deve estar ao comando da inspiração, quero dizer, a inspiraçao deve comandar a imaginação do autor, do escritor, do poeta." (in A Phala, n.º45).
Gancho tinha então 45 anos e foi apresentado como uma "revelação sólida da poesia". Antes, já Herberto Helder o dera a conhecer, com uma selecção de 11 poemas, em Edoi Lelia Doura das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa (Assírio & Alvim).
E é a Herberto Helder que Manuel Rosa recorre quando se lhe pede para classificar a poesia intensa e de matriz surrealista de António Gancho "Era um poeta nocturno".
Álvaro Lapa fala de "uma poesia nada construída, muito espontânea".
Faleceu no último dia do ano de 2005.


Fonte: DN

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