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domingo, 31 de outubro de 2004

Post de um Domingo solitário 

Há uma música sorrateira em todas as minhas manhãs. Levanta-me os lençóis enquanto ainda estou a dormir, espreita prudentemente para o outro lado da cama, para se certificar que a minha "Mente" não dá por nada, escala a almofada sem um único ruído e depois, imparável, lá me entra ouvido dentro, sem cerimónias, sempre diferente e sempre com vontade de se demorar.

Hoje não foi excepção. Acordei com o som da chuva a cair lá fora e a duplicar o espaço vazio que tinha ao meu lado. Voltei-me na cama a gozar a preguiça de Domingo. A volta ainda não estava completa quando ela surgiu, madrugadora e pontual… como sempre! Desta vez trazia consigo o Rodrigo Leão, a sussurrar-me cá dentro:

"Hoje o céu está mais azul, eu sinto"



Lá fora a chuva caía com cada vez mais intensidade. Não fora o telhado arranjado no fim do Verão e não me sentiria segura ali, naquela cama enorme e vazia... E a minha cabeça a dizer-me que o céu estava mais azul! Graças a Deus tenho muita confiança na minha sanidade mental, por isso soube que virando-me para o outro lado a música desapareceria e outra mais à época viria em sua substituição, nem que fosse a "chuva no telhado, vento no portão", é verdade que é pirosa, mas ao menos é adequada! Mais uma volta na cama...

"Fecho os olhos, mesmo assim eu sinto"

Não tinha resultado! A música ali continuava, de pedra e cal, comodamente instalada no meu subconsciente. Música de Verão em manhã de Inverno! Que chatice! Há lá coisa mais nostálgica que recordar o calor daqueles passeios de fim de tarde à beira mar numa manhã gelada como esta? Ainda por cima dei uma volta na cama maior do que a que tinha programado e vim dar à parte fria da cama!

"o meu corpo estremecer"

Esquecida que estava já da tua ausência tinha tentado encontrar os teus braços quentes... mas caí nos lençóis gelados. Regressei ao meu cantinho, que as manhãs de Inverno não dão para grandes passeios por uma cama solitária. Na falta do teu abraço abracei-me a mim. Talvez devesse dormir mais um pouco, aproveitar a hora a mais que este dia nos ofereceu, talvez quando voltasse a acordar o frio fosse menos frio e a tua ausência menos dura. Fechei de novo os olhos...

... "não consigo adormecer"...

Estranho, eu que sou a pessoa que conheço que mais gosta de dormir, já estou aqui às voltas há não sei quanto tempo, sem conseguir agarrar um sono que nunca me foge! Abraço-me com ainda mais força, quase até me magoar. Quero que o tempo voe e que pare no exacto instante do teu regresso. Sei que não será assim, sei que em breve estarás ao meu lado, mas que em breve também terás que partir... cansam-me as partidas. Cansa-me sobretudo a frequência, a constante despedida... corrói-me a escassez dos minutos contigo.

"Nem o tempo vai chegar/para dizer o quanto/eu sinto
você longe de mim/é uma espécie de dor
"

Dou por mim a abraçar-me com demasiada força. Quase me pisei no braço de tanto me apertar. Sinto a tua falta... Talvez seja tão piroso como a tal música da "chuva no telhado" dizer que sinto a tua falta. Mas sinto! Sinto a tua falta, sinto-a agora também aqui neste braço pisado de tanto te buscar... Sinto tanto que até dói!

Por momentos consigo parar o pensamento que já ia alto. Regresso à minha cama e a esta manhã de chuva. O Rodrigo Leão continua a insistir:

"Hoje o céu está mais azul eu sinto.
Pois sinto."

Já conheço estas músicas sorrateiras. Nem vale a pena insistir! Bem que pode haver uma tempestade de neve, gelo e trovoada como não há memória neste planeta, hoje, dentro da minha cabeça o céu estará mais azul! Nem vou contrariar. Canta para aí Leão insensível, que nem sequer queres saber da minha nostalgia pelos dias solarengos de Julho!

"Olho à volta, mesmo assim/eu sinto
que este amor vai acabar/e a saudade vai voltar
"

Ah isso é que não! O amor não vai acabar coisíssima nenhuma, que disso quem sabe sou eu e mais ninguém... Mas que se vai adiar vai... como sempre. Já tive tempo para te dizer o quanto me custa adiar continuamente o nosso amor? O quanto custam as conversas adiadas, as palavras apressadas, os abraços atrasados? Não?

"Nem o tempo vai chegar/ para dizer o quanto eu sinto
você longe de mim/ é uma espécie de dor
"

O braço já não dói tanto. Dói mais a tua ausência – mais uma frase para a colecção da música do “vento no portão”! Dói sobretudo saber que te terei por instantes para logo te perder. Doem estes caminhos desencontrados de constantes cruzamentos e bifurcações. Dói dar-te a mão e logo largá-la para percorrer sozinha caminhos que já não fazem sentido sem ti. Dói não saber quando poderemos seguir as duas um único caminho, qualquer que ele seja, sem mais adeus, sem mais partidas, sem mais dias de silêncio forçado!

Nem sei o que esperar/ dessa vida fugidia

Vou ter mesmo que me levantar! Com o pensamento voou também o tempo e o dia já vai ficar curto para tudo o que tenho para fazer. Sei que me vou levantar e o Rodrigo Leão vai continuar a cantar, dentro de mim, que “o céu está mais azul”. Sei também que vou tentar abstrair-me da música e da saudade, vou tentar, como sempre, fingir a felicidade longe de ti, fazer tudo o que tenho que fazer, ocupar o tempo para fazer chegar mais depressa a nossa hora. Mas sei também que nem a música nem a saudade vão desaparecer, e que a cada novo acorde que soe dentro de mim vou sentir mais presente a tua ausência…

… “não sei como explicar/
mas é mesmo assim o amor
”.


*Para que este post faça o mínimo de sentido, aqui vai a letra da música “Rosa”, do Rodrigo Leão:

Hoje o céu está mais azul,/ eu sinto/ fecho os olhos mesmo assim/ eu sinto/ o meu corpo estremecer/ não consigo adormecer/ Nem o tempo vai chegar/para dizer o quanto eu sinto/ você longe de mim/ é uma espécie de dor.
Hoje o céu está mais azul eu sinto/ Pois sinto/ Olho à volta, mesmo assim/eu sinto/ que este amor vai acabar/ e a saudade vai voltar/ nem o tempo vai chegar/ para dizer o quanto eu sinto/ você longe de mim/ é uma espécie de dor/ nem sei o que esperar/ dessa vida fugidia/ não sei como explicar/ mas é mesmo assim o amor”


Comentários:
adorei! http://oblogdorapaz.blogs.sapo.pt (o rapaz que pensava que o mundo era redondo)
 
Magnífico texto... senti-o para além das palavras, até porque elas (também) poderiam ser minhas, pelas sensações, pela ausência, pela dor, pelas partidas contantes e demasiado dolorosas, pelo caminho que não faz sentido sem "ela"...

Magnífico texto.
 
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