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sábado, 14 de agosto de 2004

Regresso a casa...


Devia saber a prazer este regresso. Deviam exalar um cheiro conhecido estas três palavras assim reunidas: "regresso a casa"... Tento concentrar-me, fechar os olhos e descobrir nos odores que aqui encontro qualquer espécie de identidade. Têm que estar aqui as bases da minha memória olfactiva: o cheiro a assado do almoço de domingo, a frescura suave dos passeios matinais com a avó, o bolo de chocolate a cozer no forno, as torradas do lanche, o perfume suave da mãe, as rosas perfumadas no jardim... Mas nada, nada a não ser um leve odor a cigarro acabado de queimar… é tudo o que sinto neste "regresso a casa".
Procuro então pequenos sons guardados da infância: as gargalhadas de criança, o tilintar das chaves a prometer um passeio familiar, um cantarolar de músicas a soar a alegria, o som suave de palavras carinhosas… mas já um tumulto de frases stressadas me faz acordar e duvidar se é real a memória, ou se toda a realidade recordada foi um dia fantasiada para compensar uma infância que nunca existiu…
Regresso a casa… e nem com os sabores me identifico… Estranho lugar este a que chamo casa! Estranho! Tão estranho que a afirmação se transforma em interrogação: regresso a casa?!
Não pode ser este o sítio a que chamo lar. Não pode ser este o canto que a vida me reserva como porto de abrigo, último reduto, gruta remota e inabalável. Definitivamente, não é este sítio inóspito e austero, a minha casa, não é, definitivamente, daqui que sou!... Nunca foi!... E ao afirmá-lo, recordo agora o sentimento, bem real, de estranheza com o qual, esse sim, tantas vezes convivi, quando ainda longe de conhecer outros pontos e outros portos, sabia já que não era aqui que pertencia!

Num destes dias, à simples pergunta: "de onde é?" alguém me respondeu: "sou de muitos sítios" (agora podia fazer aqui um grande parênteses para aproveitar para dizer a esse alguém, que sei que muito provavelmente me vai ler, que foi um prazer conhecê-la, mas haverá outras oportunidades para dizê-lo, que não aqui, por isso não faço parênteses nenhuns e continuo, desculpem lá os leitores esta interrupçãozita!... Retomando:) Num destes dias, à simples pergunta: "de onde é?" alguém me respondeu: "sou de muitos sítios"… A frase ficou-me a bailar no pensamento, por tanto que me identifiquei com ela.
Também eu me sinto assim, de muitos sítios. Talvez um pouco daqui, deste sítio a que, por hábito chamo casa, porque também aqui, de forma positiva ou negativa, foi construída a minha vida. Porque foram estas paredes que me conheceram os primeiros sentimentos, porque foi nestas paisagens que foi surgindo aquilo que hoje sou.
Mas estou longe de ser daqui!
Se o nosso sítio é o sítio onde nos sentimos bem, onde nos sentimos integrados na paisagem e em equilíbrio com tudo o que nos rodeia, então talvez o meu sítio seja Coimbra. Não só pelo que lá vivi, não só pelo que partilhei com aquelas ruas e aquelas luzes, mas pela aura inefável que existe naquela cidade, que chega a personificá-la e a fazer sentir, a todos quantos por lá passam, que não deram com uma cidade, mas com uma mulher… uma mulher fascinante, que se nos entranha nos poros e nos marca para sempre.
Mas se o nosso lugar, a nossa casa, o nosso porto de abrigo, é o sítio onde nos sentimos completos, então sou de inúmeros lugares e de lugar nenhum. Sou daqui, sou de Coimbra, mas sou também de todos os sítios onde tenho amigos, sou de Lisboa, sou de Viana e sou do Funchal, sou de todos os lugares que já visitei com a minha Mente e de todos aqueles que um dia quero visitar com ela. Sou da pequena aldeia onde um dia vi o nascer do Sol mais belo da minha vida, sou da ilha onde andei pela primeira vez de barco, sou das águas límpidas do Mediterrâneo e da neve gelada dos Pirinéus, sou da ponte que serviu de paisagem de fundo à minha primeira paixão e daquele cantinho de Portugal onde, longe de tudo, percebi que era incontornável o amor que sentia pela minha Mente…
Talvez seja por ser de tantos lugares assim, que me saiba a estranheza este regresso a casa. Porque ao regressar a casa, ficam sempre, invariavelmente, perdidos pelo caminho, vestígios de mim, sem os quais, mais do que uma estranha no próprio lar, me sinto uma estranha na própria pele…
Ai e este cheiro a cigarro que não me larga!...

Comentários:
Assumidamente.... Adorei a forma como colocou em palavras escritas o que tanto sinto sem verbalizar. Obrigada.
E já agora vivo em Coimbra e sou apaixonada por esta mulher fascinante....
Giesta
Não consegui inscrever-me mas assino Giesta
 
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