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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2004

Silêncios 


Lost in translation podia ser ela… Perdida algures no meio de tudo… no sítio que a viu nascer, entre as pessoas que a viram crescer… perdida por entre os sentidos que as palavras e as vidas assumiam num meio que jamais seria o seu… estrangeira no próprio mundo…

Sair dali para outras bandas não lhe custou sequer um olhar para trás, um singelo adeus, uma lágrima retida… foi com o conforto de quem finalmente encontraria justificações para a sensação de estranheza que o mundo sempre lhe causara.
Partia com o desprendimento de quem não tem raízes nem laços suficientemente sólidos para se sentir presa. Gostava das pessoas obviamente… Gostava muito das pessoas… De umas chegara até a gostar mais do que seria devido gostar… Mais do que as “regras” e os “sentidos” e as “palavras” alguma vez permitiriam que gostasse… E por isso gostava em silêncio, num mundo só seu, que poderia ser vivido ali ou em qualquer outro lugar…
Partia sem esperanças, expectativas ou ansiedades... A idade, apesar de parca, já lhe permitira perceber que por muito que tentasse seria sempre difícil aos outros entender os significados que iam implícitos nas suas palavras… de todas as vezes que havia tentado que o seu mundo interagisse com o mundo quotidiano a falha de comunicação revelou-se de tal forma densa que acabou sempre por desistir… e cada nova tentativa falhada silenciava um pouco mais o mundo onde se revelava na sua essência.

Foi por isso uma pessoa fechada sobre si mesma, escondida entre sorrisos quotidianos e conversas banais, que a cidade viu chegar. Tudo estava já mecanizado em si: as respostas, os olhares, as conversas… tudo medido ao pormenor, com o profissionalismo de uma actriz que conhece de cor o seu papel, o papel que percebeu ser o mais confortável de interpretar: o da pessoa socialmente integrada, feliz e de bem com a vida que lhe era imposto viver...

… E no entanto… Apesar das máscaras e das representações, quando já ela própria se conformava e confundia com o personagem que havia incarnado, foi ali que se encontrou… Surgido do nada, reencontrou os seus olhares num outro olhar… o eco dos seus sentidos em palavras proferidas por outra voz… o mesmo jeito perdido… o mesmo sorriso disfarçado… a mesma máscara… o mesmo mundo…

E quando o véu finalmente se dissipou por completo e os sorrisos se transformaram em lágrimas e daí em abraços de um encontro especial, compreendeu que o mundo de silêncio em que vivera até então não era apenas seu… e o silêncio transformou-se em minutos, horas… anos de um diálogo interminável, sobre máscaras, silêncios e magia!...

Não era, por isso, estranho que ainda agora, anos volvidos, fosse ali, a mais de cem quilómetros do sítio que a viu nascer, que se sentisse em casa. O som da cidade devolvia-lhe ecos de si mesma, cada rua partilhava consigo a cumplicidade de uma história, o rio conhecia as suas ansiedades, o sino repicava as suas alegrias… e as palavras…

… curiosamente, as palavras que agora trocava, alguns anos volvidos sobre o dia em que ali chegara, já não eram o monólogo de então, nem apenas o diálogo de magia, mas uma conversa duplicada, a fazer crer que aquele era muito mais que um mundo fechado na mente de alguém …

… E por entre a conversa fluida de quem está final e verdadeiramente feliz e de bem com a vida que sempre quis viver, deu por si a perguntar-se quantos mundos existirão ainda em silêncio? Quantas vozes por ouvir?... Quantas pessoas ainda lost in translation?...

… E como poderia ouvir-se longe o eco deste mundo se não se calassem todos esses silêncios!...


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