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quarta-feira, 12 de novembro de 2003

Cunhal ou o porquê das causas. 


Ontem fez anos uma das figuras mais admiráveis da História recente do nosso país…

Bem sei o que dirão muitos… bem sei o que dirás, amor: que a persistência no erro não é minimamente louvável, que não se pode admirar uma pessoa que não se soube adaptar à evolução dos tempos, ou mesmo, in extremis, que é impossível admirar alguém que tenha tido como ideal de vida a instalação da ditadura em que o comunismo se traduzia…

Mas façamos um esforço de abstracção: esqueçamos que é comunista, esqueçamos tudo o que disse, esqueçamos tudo o que defendeu, esqueçamos tudo o que decidiu!... Restemo-nos apenas na paixão que imprimiu a essas ideias e atitudes! Observemos o empenho de uma vida, a coerência, a luta constante, determinada e nunca vacilante por uma causa!... Impossível não admirar!... Pelo menos eu não consigo deixar de admirar!

Confesso (mesmo sabendo que ao fazê-lo corro o sério risco de perder a minha namorada assumida e aguerridamente de direita) que ontem quando ouvia os inúmeros relatos sobre a vida de Cunhal me comovi até às lágrimas… Porque até às lágrimas me comovem as vidas assim, empenhadas, dedicadas, activas, lutadoras, em que cada novo acto é um passo na direcção daquilo que se deseja… Não sei explicar o porquê desta reacção… sei que nasci assim: sempre me deixei maravilhar pelas histórias de todos aqueles “Luther Kings” que, nas mais diversas áreas, lutaram até à morte por aquilo em que acreditaram, por aqueles que apaixonadamente se entregaram a uma causa e viveram em coerência com ela… por aqueles que, de uma forma ou de outra, tentaram fazer com que o mundo se tornasse num mundo melhor com a sua passagem por aqui…

Não consigo deixar de ouvir estas histórias e pensar como um dia gostaria que fizessem a sinopse da minha vida da mesma forma: como uma pessoa que se dedicou de corpo e alma a uma causa, como alguém empenhado e (já que estamos numa de suposições) bem sucedida nas suas lutas.

Aliás, não consigo conceber a vida de outro modo que não seja entregue a um ideal… Sempre me irritou a passividade. Aquela atitude: “não sei, por mim tudo bem”… “quero lá saber, os outros que façam!”… Tanto que cheguei ao ponto (numa daquelas fases do “Lésbica, eu?! Estou mas é parva!!”) de pensar em ser freira e viver a vida em missões em Angola (havia de ser lindo, havia!!!)… e dediquei-me à Amnistia Internacional… e a mais este grupo… e àquele… e àquele… sempre com a mesma garra, sempre com o mesmo empenho. Sentia-me realizada em todos eles e a cada um me entregava por inteiro. Compreendi, nessa altura, que nasci para ser activista, para dizer, protestar, reclamar e apoiar, defender, proclamar… até que os dias começaram a só ter vinte e quatro horas e a não darem para tudo… a não darem para nada…

Na altura achava que as grandes lutas tinham que ser lutas por causas visíveis, socialmente reconhecidas e valorizadas. Movia-me a “utopia” e só pararia quando a alcançasse… Se me dissessem, então que daí a poucos anos estaria fechada e feliz num escritório entre livros, processos e leis, cairia numa depressão profunda só de imaginar o tédio e o vazio de tal vida… Hoje, dentro das paredes do escritório, compreendo que as causas não têm que ser visíveis e que as lutas quotidianas são também elas louváveis e meritórias… Hoje compreendo que não há vidas fúteis, vazias ou inúteis quando são vividas, segundo a segundo, de modo empenhado… apaixonado…
Não concebo um dia, um único que seja, vivido com a apatia de quem vive dias que não são seus. Os dias são efectivamente nossos e fazemos deles o que muito bem entendermos. E mesmo que não gostemos do que estamos a fazer (o que não é o caso!) se debitarmos em todas essas obrigações do dia-a-dia a paixão e a dedicação que debitaríamos se fizéssemos aquilo que idealizámos, acabamos por necessariamente chegarmos ao fim de cada um desses dias infinitamente satisfeitas!

E é por isso que continuo a dedicar-me com a garra de sempre em todas as facetas da minha vida… E em todas me sinto realizada… Ou quase todas…

Confesso (e já vamos na terceira confissão… qual segredo de Fátima!) que me sinto um tanto ou quanto amputada por não poder participar activamente nesta nossa causa lgbt… Sei que não faria um trabalho melhor do que o que está a ser feito pelas nossas associações… sei que dificilmente levaria algo de novo para a comunidade… Mas este “bichinho do activismo” corrói-me por dentro, impele-me, tanto ou mais que todas as outras razões, a dar o nome, a cara… a vida, quem sabe… por esta causa… E, no entanto, mil e quinhentas outras razões, internas e externas mantém-me aqui… activista “em potência”… A comover-me do outro lado do écran com vidas corajosamente activas e empenhadas como a de Cunhal!


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