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domingo, 12 de outubro de 2003

Assumidamente um repto aos activistas! 


As 21h já quase davam lugar às 22h quando finalmente entrei no carro para voltar a casa depois de mais um dia de trabalho estafante. Tirei o casaco do fato, troquei as botas de salto alto por uns sapatinhos de vela bem baixos e confortáveis e ali estava eu, de novo, a poder ser eu própria por uns instantes (pelo menos nos três quartos de hora que me esperavam de viagem até casa). Liguei o carro e, quando me preparava para telefonar a quem vocês bem sabem, do rádio que se ligou automaticamente com o carro saiu a voz do António Serzedelo. Pois é, era quarta-feira, dia de “Vidas Alternativas” e estava precisamente naquela hora impar em que a “comunidade gay” pode ouvir o seu eco do lado de lá da rádio. Atrasei o telefonema e deixei-me ficar a ouvir.
Como convidada do programa estava presente uma transsexual que, entre outras actividades, “ganhava a vida” (desculpem mas não encontro uma forma mais simpática de o dizer) perto do Parque Eduardo VII a “negociar” com quem por lá parava.
Até aqui tudo bem. Não sou ingénua ao ponto de acreditar que na nossa comunidade homossexual as pessoas são todas “straight” (!!!), que os casais homossexuais são todos muito fiéis uns aos outros, que as relações duram todas eternidades, que não existem homossexuais a prostituir-se e que, muito menos existem homossexuais que recorram à prostituição; nem sou de tal modo hipócrita que defenda que as coisas deveriam ser assim. Aliás, nem sequer sou tão ignorante que não queira saber! Gosto de me manter informada e de conhecer o mundo para além da minha janela. Por isso deixei-me estar ali, com a rádio ligada e o “Vidas Alternativas” no ar, enquanto os quilómetros passavam.
Ouvi a convidada falar da sua vida e do que fazia, ouvi e até achei interessante. Não gostei foi de ouvir o António Serzedelo, já com o programa quase no fim a afirmar: “já sabem, se quiserem conhecer a Senhora X, podem encontrá-la todas as noites perto do Parque Eduardo VII e com 30 a 60 euros ficam bem servidos tanto no activo como no passivo”.
Ainda pensei que fosse do cansaço e que tivesse ouvido mal. Mas, do outro lado do telefone (que falta me fazes do lado de cá!) a Mente Assumida confirmou-me que foi mesmo isso que ouvi… E, ainda que saiba que corro o risco de ser apelidada de intolerante ou mesmo reaccionária (que é sempre uma palavra que fica muito bem a quem quer parecer revolucionário!) não posso deixar de expressar aqui a minha indignação.

Todos sabemos que a prostituição existe e não é menos verdade que ela exista entre nós homossexuais. Mas será que há mesmo necessidade de promovê-la assim? Sinceramente penso que não. Aliás, penso que não só não há necessidade como é muito grave fazê-lo. E muito mais grave me parece tal promoção quando ela é feita por um presidente de uma associação homossexual, como é o caso!

Sobre as associações homossexuais recai o peso enorme da responsabilidade da representação de uma massa, na sua maioria anónima e silenciosa, que, por não se poder expressar (e que pena tenho eu de o meu anonimato, imposto pela sociedade, me impedir de abraçar esta causa de um modo mais activo!), merece uma protecção especial dos seus direitos. E essa protecção especial só pode ser conseguida por aqueles que, dando corajosamente a cara por essa massa, os consigam conquistar!
Assim sendo, tudo o que dizem e fazem os membros dessas associações, e especialmente os seus presidentes, tem repercursões enormes na sociedade, porque são eles a imagem dos homossexuais. É à sua cara, à sua voz e ao seu comportamento que o público associa o homossexualismo.
É óbvio que não se exige destas pessoas, tão humanas como todas as outras, que se dediquem a uma vida de “sacerdócio”, sem qualquer mácula ou “pecado”. Longe disso, têm todo o direito de viverem as suas vidas como bem querem e lhes apetece e de dizerem o que muito bem entenderem. Mas não podem deixar de ter a consciência de que é para eles que os holofotes estão virados e que tudo o que disserem e fizerem em público terá eco na construção das mentalidades que tanto precisamos de ver mudadas.
Todos sabemos que, quer queiramos quer não, a imagem que a sociedade tem dos homossexuais é ainda, na sua grande maioria, negativa e pejorativa. Quer queiramos quer não, para a grande maioria das pessoas, homossexualismo é ainda sinónimo de promiscuidade e perversão e os homossexuais não passam ainda de “grandes bichas malucas” ou de “camionistas com falta de peso” (sim, eu sei, é muito baixo, mas acreditem que o ouço dizer muitas vezes, em muitos meios e nas mais variadas circunstâncias!).
Ora, se queremos combater essa imagem temos que fazer tudo menos alimentá-la. É óbvio que há prostituição homossexual, é óbvio que existe muita gente que vai para os bares gay tentar engatar… Assim como também há heteros que o fazem! Mas isso não é preciso estar a dizer e a promover, porque já toda a gente sabe!
O que muita gente não sabe ainda é o que é o dia a dia de um homossexual, como pensa um homossexual, o que fazem de bom na sociedade os homossexuais… o que muita gente não sabe ainda é que ser homossexual é ser em tudo igual a um hetero, menos no facto de ter que conviver diariamente com um preconceito.
Bem sei que as associações homossexuais (cujo trabalho muito respeito e admiro, como já aqui o afirmei) têm promovido debates, conferências, sessões de esclarecimento sobre o assunto. Muitos e bons, com o senão de serem, na sua maioria, em Lisboa e não conseguirem chegar ao grande público (mas pelo menos enquanto se fazem vão-se abrindo as consciências).
O problema é que educar custa e demora. Inculcar valores numa sociedade leva muito tempo. É um trabalho paulatino e, imagino, quantas vezes, ingrato e inglório. Pelo contrário, os preconceitos são vorazes e sugam tudo aquilo que seja susceptível de alimentá-los, como a frase infeliz de António Serzedelo na última quarta-feira!... Imaginemos que do outro lado até estaria alguém cujo filho é homossexual e estivesse a tentar perceber como funcionaria o seu mundo… O que iria pensar?... Acreditem, por muito boa vontade que as pessoas tenham em perceber-nos há um preconceito de séculos a combater e em cujo estereotipo não nos podemos deixar cair!
Não sei se este meu repto vai ou não cair em saco roto, mas gostava de lançar daqui o apelo a todos os homossexuais que corajosamente se apresentam como representantes da nossa comunidade: ponderem cada gesto e cada frase proferida em público, a evolução das mentalidades depende muito daquilo que fizerem e transmitirem!
Eu aqui fico a observar-vos, infelizmente na penumbra de um blog… até ver!


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